Se o início de uma análise se
dá com a produção de sentidos que visam a
delimitação dos parâmetros constitutivos de
nossa subjetivação, seu encaminhamento promove
o esgarçamento dessa dimensão de significação
revelando em última instância sua
insuficiência para dar conta da vida, dado que
esta é mais ampla do que qualquer
representação que tente delimitá-la. Tocamos
portanto o não senso, e nessa perspectiva o
final de uma análise aponta em certa medida,
para a dessubjetivação, ou seja, aponta para a
queda do herói que fizemos de nós mesmos para o
melhor e para o pior. Eis aí a dimensão
trágica da Psicanálise. A condição humana é
aí abordada na dinâmica do paradoxo que divide
o sujeito entre vida e morte, alegria e
sofrimento, prazer e dor, luz e escuridão. A
ética da Psicanálise sustenta-se no paradoxo.
O artifício de certas estéticas nos propiciam
estratégias para a difícil transmissão do que
se situa para além do campo da representação,
para além do domínio fálico, universo
masculino referido à plena potência vital. Esse
mais além visado vai referir-se à noção
psicanalítica de feminino. E foi por esse viés
que a estética barroca veio a interessar-nos.
Eugênio dOrs, um
dos estudiosos do barroco, teve o mérito de
fornecer as bases de uma explicação
estrutural da noção de barroco.
Para ele, a abordagem do barroco como mero estilo
de um tempo se desfaz, em proveito da
averiguação de oposições sincrônicas entre o
barroquismo e o classicismo que designariam, na
verdade, dois modos de orientação do psiquismo.
Para ele o classicismo seria um feito da
civilização fundado sobre a ordem e a
disciplina, produzido pelo equilíbrio apolíneo
e estaria do lado do que se designa por animus,
em referência ao universo masculino. Em
contraposição o barroco seria uma
reapresentação da vida selvagem e do paraíso
natural e se identificaria ao feminino, à anima.
Entre eles estaria sempre presente tanto uma
oposição natural quanto uma aliança
conjugal . O barroco funciona, a seu
ver, como a voz do inconsciente que protesta
contra a ditadura da racionalidade consciente. É
exatamente nesta perspectiva da afinidade entre a
expressão barroca e as leis do Inconsciente que
encontramos elementos de explicitação para a
difícil transmissão da ética da psicanálise.
Na comparação
entre uma obra clássica e uma obra barroca
podemos destacar algumas dicotomias do ponto de
vista formal. Por exemplo, às regras da simetria
e proporcionalidade clássicas, se opõe a
descentralização nas composições, a marcada
presença do exagero, certas distorções na
perspectiva, o vigor do movimento que frente ao
vertical e horizontal privilegia o diagonal. A
obra apresenta-se aqui não como reprodução da
realidade, como pretendia a obra clássica , mas
como exploração da expressão, dissolvendo a
concretude. A ilusão de ótica tem sua presença
marcada nas artes plásticas. A luz na pintura
deixa de ser absoluta pretendendo tudo dar a ver,
e constitui-se no barroco como luz focal, na
tarefa de impressionar. Os fundos apresentam-se
aí turbulentos, revelando o contexto conturbado
de toda tematização. A obra não apresenta-se
mais como resposta, obra que tem seu sentido
fechado, mas como enigma, obra aberta.
Fica evidente na
literatura o quanto o barroco serve-se de temas
contraditórios, de uma percepção sensorial da
realidade, do paradoxo, do uso de metáforas, da
incidência de inúmeras figuras de linguagem que
expressam uma visão conflituosa do mundo. O
requinte formal é sua característica marcante,
e a linguagem rebuscada ficou conhecida como
gongorismo.
Uma
manifestação tão marcante quanto esta não
poderia deixar de marcar sua expressão na
música. Com ela surge a música de contrastes, o
solo se destaca no coro e o público toma lugar
relevante na produção musical. A música de
Bach e de Vivaldi são apenas alguns exemplos
dessa modalidade de produção.
Nesse momento,
nossa pesquisa caminha também na direção de
refletindo acerca da característica
prevalentemente barroca da cultura brasileira
encontrar talvez aí explicações para o fácil
acolhimento que a Psicanálise encontrou em nosso
país.
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E o Vídeo Desdobramentos de Vênus também está no Youtube. Para vê-lo, basta clicar no vídeo abaixo.