Revistas‎ > ‎

Revista v. 02, n. 01

Bem-vindos ao nosso terceiro número!

Ainda que não tenhamos tido a intenção de compor os números editados com enquadramentos temáticos, parece que na organização dos mesmos, os temas conspiram; tal como quando nos colocamos a investigar um dito assunto e então o encontramos por toda a parte, como se tudo conspirasse para esse encontro, como me lembrava outro dia o poeta Marco Luchesi. E foi assim que, se no primeiro número da Psicanálise&Barroco em revista, esse estado de conspiração se teceu em torno da literatura, e no segundo, em torno da relação com a contemporaneidade, agora parece que fomos imantados pelo feminino e o que se tece em torno dele, via as expressões e os discursos que tentam apreende-lo, e a suposição de um gozo que lhe corresponderia. Dessa forma, como verão, o que vamos lhes apresentar nesse número três, é um conjunto de artigos que “coincidentemente” acabam por, de alguma forma, circunscrever essa direção temática.

O primeiro dos artigos que lhes apresentamos é o belíssimo texto de Nadiá Paulo Ferreira, intitulado “O amor como recusa do dom no trovadorismo e no barroco”. Nele, a autora, com a maestria de quem entende do assunto, e a sensibilidade de uma lida com o saber que se sabe não pleno, busca na fonte dos poetas contornar o vazio da não plenitude em torno do qual gravitamos. No artigo encontramos, de um lado, as cantigas de amor cortês e a poesia barroca, enquanto manifestações nas quais a privação do objeto aparece como condição de uma impossibilidade que é estrutural. De outro lado, nas cantigas de amigos surge uma primeira versão mítica do amor que, denegando o limite da satisfação, faz dele promessa de falicidade e de gozo pleno. O romantismo apresentado como uma expressão dessa promessa de falicidade retomada das cantigas de amigo, representa a insistência em idealizar, denegando a castração, mas entretanto, incorpora o sofrimento presente nas cantigas de amor cortês fazendo aparecer histórias de amores infelizes. “A dor do amor se converte em gozo no sofrer”, e o herói ou poeta convertem-se em expectadores melancólicos de suas próprias vidas.

Nadiá argumenta que a Dama no amor cortês não é a representação imagética das mulheres, mas sim d’A/ Mulher. Designação pela qual Lacan, seguindo Freud, busca situar a inexistência do significante do Outro-sexo, do feminino, assim como também da morte, no inconsciente. Será por essa via, que a Dama toma valor de um mistério inviolável, expressando o impossível da relação sexual em torno do mito da castidade. Resta então a sublimação,

aludindo a existência de um gozo Outro que será retomado pela poesia barroca na via da abordagem do objeto como para sempre perdido.

Com sua focalização do amor na ótica de obras literárias, a autora ressalta a observação de Lacan de que o amor aparece em suplência à impossibilidade da relação sexual – impossibilidade para os seres falantes, da conjugação perfeita entre os sexos–, e lembra ainda, que este ganha diversas versões na vida e nas obras. No trabalho analítico, via o amor de transferência ele serve como meio de operar o que é da ordem do real pela via do simbólico, o que possibilita as relações entre o inconsciente, o saber e a verdade, colocando em cena a função da sublimação, que é a via pela qual o inexorável da falta, pode advir como meio de gozo, de um gozo Outro, não mais sintomático e denotador de um defeito na simbolização.

Essa dimensão inexorável da falta encontra na posição feminina sua expressão máxima, o que nos leva ao bombástico aforismo lacaniano “A mulher não existe”. Isso seria então o mote para que cada mulher venha então a inventar sua maneira própria de fazer-se uma mulher. É nessa perspectiva que a chamada dimensão da mascarada encontra sua função. Com o véu das máscaras, da maquiagem, dos artifícios, cada mulher, confrontada desde sempre, com a dimensão radical da privação simbólica do phallos, enquanto conseqüência psíquica da diferença anatômica entre os sexos, tenta contornar o enigma da feminilidade, dando de certa forma, expressão fálica, para o que excede às possibilidades de ser delimitado pelos significantes. A máscara adquire uma função semelhante a do escrito, destinando-se a fazer borda a uma impossibilidade. O que aí se revela, é que a insuficiência da satisfação aportada pelo gozo fálico, sexual, exige a suposição da existência de um gozo Outro, encontrado fora do campo sexual. Um gozo feminino no sentido que lhe atribui a psicanálise, o aproximando ao gozo místico e tecendo sua relação com uma certa versão do amor. Esse gozo ganha, segundo Lacan, expressão privilegiada na arte barroca. São essas idéias que encontram-se desenvolvidas no delicioso artigo de Irineide Santarém André Henriques com a análise que faz da poesia barroca de Sóror Juana Inés de la Cruz, conhecida como a “Fênix Mexicana”, que ainda que dedicada à vida monástica, trata em sua obra de temas como o amor, o feminino, a teologia e a tragédia.

Ainda dentro do contexto de questionamentos que a feminilidade nos aporta, o artigo de Aline Vilhena Lisboa “O feminino em Pablo Picasso”, apresenta uma contribuição interessante com uma análise que articula a vida e a obra desse grande artista, para quem a arte é uma mentira que faz realizar a verdade. Por essa definição, já se pode perceber uma relação possível entre essa visão da arte e a mascarada, da qual falávamos acima. Como se não bastasse, o artigo enfatiza que nas distorções operadas pela retratação das mulheres, que não eram mulheres qualquer, mas figuras importantes da vida amorosa do artista, algo se enuncia da verdade desse sujeito. Ou ainda, da forma como esse sujeito faz sua lida com a verdade. O que pode ser ainda transformado na questão proposta pela autora: “O que é ‘a’ mulher de Picasso? Se concordarmos com Nietzsche que diz que a verdade é mulher, o que justificaria o insucesso da viril racionalidade filosófica para aborda-la, será aí mesmo que se explicitará o veio fecundo de investigação sugerido pela autora.

Por falar em verdade, é essa sua natureza de revelação e encobrimento, que se presentifica na produção dos discursos, o assunto ao qual se dedica o próximo texto deste número de nossa revista. Trata-se de um presente que nos foi encaminhado por Terezinha Maria Scher Pereira, com seu artigo “O diálogo e o desejo em Guimarães Rosa”. Buscando caracterizar a produção intelectual latino-americana utiliza elementos da obra do nosso maravilhoso Guimarães Rosa, para apontar nele a presença do que em sua teoria dos quatro discursos, Lacan denominou como discurso histérico. Tal discurso é marcado pela dinâmica na qual o mestre é convocado para que se ponha em questão a sua verdade. A histérica força a verdade a chegar ao seu limite e mostra que a verdade é não toda, só podendo, desta forma, ser dita pela metade, como nos lembra o autor acima citado. A utilização que fiz de “a histérica” no feminino, não é gratuita. A histeria apresenta-se como uma indagação acerca do mistério da feminilidade. Nessa perspectiva o trabalho de Terezinha nos dá elementos para pensarmos sobre a presença da feminilidade em nossa cultura, na qual por mais que por vezes nos hipnotizemos universitariamente pela verdade do mestre que vem de alhures, não raro, nossas produções intelectuais e artísticas revelam-se como obras que frutificam pelo questionamento dessas mesmas “verdades”, trabalhando com a inversão de papéis, onde as múltiplas hipóteses tomam o lugar das desejadas respostas. Isso é o que nos ensina a autora enfatizando com sua análise, a dimensão barroca de nossas produções, sua relação com o modo da psicanálise operar com o discurso e conclamando a visualização de “Outros possíveis lugares de enunciação”, numa perspectiva na qual não se perca a “prática do mundo”.

Para concluir esse número, mais uma pérola para essa nossa coleção. Escandindo o plano da visualização, Mauro Mendes Dias, apresenta-se como bendito fruto entre as autoras. Com o artigo “Moda e mercado do olhar”, recortando aspectos desenvolvidos em seu livro Moda: divina decadência, aponta que bem para além da moda ser indicativa de status social, ela se fundamenta sobre a indissociabilidade entre o ser falante e sua roupa. Mostra que isso pode ser denotado desde a Gênese com Adão e Eva. Estes, logo após terem comido o fruto proibido, e terem sido expulsos do paraíso, envergonham-se de sua nudez e se põem a cozer vestes para si mesmos. Assim, advir como humano, inscrito na dimensão da sexualidade, implica perder a nudez, recorrer ao universo das vestes com as quais se vela a falta-à-ser. O júbilo da imagem que permite que o sujeito se tome por um objeto passível de ser visto como amável pelo Outro, faz esse sujeito cativo do gozo escópico, o que incrementa o valor da vestimenta. O autor argumenta que a moda vem tentar instrumentalizar esse gozo e, ao mesmo tempo em que pode servir a que o sujeito possa responder “maneiristicamente”, eu diria, ao desejo do Outro, demarcando com isso uma expressão de sua subjetividade, pode por outro lado, fazer-se também meio de enclausuramento, via o agenciamento capitalista que é feito dela.

A direção do trabalho analítico implica um certo desnudamento, na medida em que o sujeito é convocado a fazer um ultrapassamento de suas identificações imaginárias. Entretanto, resta sempre de qualquer forma, inventar estilisticamente um modo de contornar o vazio que se encontra no centro de nossa existência. Nesse contexto não é à toa que as mulheres sejam, em geral, mais sensíveis à moda, talvez isso expresse sua íntima relação com aquilo que a posição feminina lança mão, como suplência frente a condição radical de privação na qual se encontra.

Bom, agora é só deitar e rolar. Desejamos a vocês um bom divertimento.

Por Denise Maurano Mello




Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:28
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:28
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:28
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:28
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:28