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Revista v. 03, n. 01

Neste número de nossa revista vocês vão poder experimentar uma interessante viagem no tempo, na qual via certas torções, sempre tão caras ao estilo barroco, chegaremos às discussões sobre a contemporaneidade abordadas quer pelo viés de sua festa tecnológica, quer pela designação de Pós-Modernidade, quer pela focalização da crise na arte, ou ainda, através dos novos paradigmas científicos.

Os artigos que aqui selecionamos compõem um trajeto que abordará aspectos da história da cultura, da arte e da mitologia, que passarão pela Antiguidade Grega para iluminar aspectos da cultura informacional contemporânea, destacados por Gláucia Dunley. Focalizará a visão de Freud e de Lacan acerca de Leonardo da Vinci, extremamente elucidativas para entendermos os aspectos fundamentais da sublimação, via um belo trabalho de Beatriz Siqueira. Pontuará desdobramentos relativos ao advento do Modernismo nas artes, articulando-o ao barroco e à psicanálise, através do interessante texto de Carla Lacerda, Maryene de Paula e Nataly Cristino. Levantará questões essenciais em torno da chamada Pós-Modernidade, também discutida a partir de certos elementos inaugurados pelo Barroco, num trabalho elaborado em conjunto por Alcimar Silva, Lys Alvarenga,Rita de Cássia M. de Souza e Vanessa Fassheber. Alcançará a temática da crise na arte, ou da questão da morte da arte, formulada de maneira sagaz por Gisele Falbo, que discute as posições de Baumgart à luz das reflexões de Lacan sobre a finalidade da arte, fazendo também um trajeto do primitivo ao contemporâneo. E aportará na discussão de Bianca Faveret, que apoiada no pensamento de Thomas Kuhn fará uma crítica aguçada aos novos paradigmas contemporâneos que se delineiam a partir de certas correntes das neurociências, via por meio da qual se tenta inutilmente, é claro, objetivar a psicanálise.

Assim a viagem será longa, no sentido de indicar muitas paragens, porém curta, no sentido da facilidade de empreendê-la, já que a habilidade dos autores envolvidos, gozando de linguagem clara e precisa, nos conduzirá, como poderão ver, rapidamente e sem grandes esforços, ao fim desse trajeto.

Intrigou-me, como sempre acontece, a relação que podemos estabelecer entre esses artigos que reúnem pesquisadores de orientações tão diversas. De alguma forma, todos parecem focalizar a dualidade entre paradigmas que orientam a produção de obras, artefatos e idéias no que veio a constituir-se como mundo Ocidental, que ora se revelam siderados pelo ceticismo, pela linearidade, pela retidão e racionalidade, e ora se entregam a uma certa relação ao sagrado, ao espiral, ao curvilíneo, a um saber que não é redutível à razão. Tais idéias nos trazem chaves preciosas para entendermos o dinamismo dos tempos, e o que, em cada um deles emerge prevalentemente, para melhor situarmos a emergência e o papel da psicanálise na cultura atual.

Será na dimensão do paradoxo, ou seja, da possibilidade de afirmação de convivência das polaridades, que o trabalho de Gláucia Dunley A festa tecnológica da Contemporaneidade, abordará nossas próteses atuais, concebidas como todos os aparatos da cultura informacional que nos rodeia – tevês, computadores, celulares, etc –, como reveladoras do paradoxo vivido pelo homem contemporâneo, polarizado entre a nostalgia do divino e a potência de criação. Numa perspectiva que aponta em nossos tempos, tanto a continuidade, quanto a separação radical entre o humano e o divino, que bem se adequa a designação que Freud faz do homem moderno como “homem com Deus com prótese”.

O trabalho seguinte intitula-se Leonardo da Vinci: fantasma, arte e sublimação. Nele, Beatriz Siqueira destaca o comentário de Lacan que reafirma que a partir de Leonardo, arte e ciência se misturam e o quadro passa a ter uma organização absolutamente nova na história da arte. Isso porque Leonardo queria “fazer milagres”, numa exigência de atingir uma forma ideal, o que o coloca numa pista que o conduz ao impossível. Essa relação ao impossível é o que dirige sua genialidade e o conduz, na via da sublimação, a um lugar onde a satisfação é atingida por uma forma de satisfação direta, ainda que substitutiva, da pulsão. Nele, o cientista não se encontra dissociado de um senso de mistério sempre presente em sua estética, dedos apontados não se sabe para onde, sorrisos enigmáticos, conjugam clareza e ocultamento, fazendo de Leonardo um homem adiante de seu tempo.

Num movimento de avançar no tempo, dando um passo largo, chegamos à articulação barroco e modernismo. O barroco, de certa forma já anunciado nas obras abertas de Leonardo, na dimensão na qual essas, não encerram um sentido em si mesmas, mas conjugam-se com seu em torno, e com isso não dão a ver tudo, reservando uma boa dose de enigma, será explorado como precursor do moderno em sua expressão Modernista, num trabalho de Carla, Maryene e Nataly, intitulado Barroco e Modernismo: convergências com a psicanálise. Por essa linha, as autoras estendem uma articulação por mim apontada em trabalho em co-autoria com Marco Antônio Coutinho Jorge , onde exploramos a Semana de Artes Modernas de 1922 como um dos importantes portais para a entrada da psicanálise no Brasil. Elas destacam a valorização do pulsional, do lúdico e da intensidade na cultura brasileira como favorecedores tanto do acolhimento do Barroco, quanto da psicanálise.

Chegamos então à vertente da Contemporaneidade designada Pós-Modernismo, e aqui também, explorada por sua relação ao Barroco. Assim, Barroco e Pós-Modernidade: sensibilidades dualísticas é o tema ao qual Alcimar, Lys, Rita de Cássia e Vanessa se dedicam. Nele, os autores trazem elementos que marcam bem a diferença entre a abordagem filosófica do moderno, inspirados na razão e na verdade, através da figura mitológica de Prometeu, símbolo do homem moderno em sua aspiração de apoderar-se da verdade, e a concepção que marcará o pós-moderno, representado pela figura de Hermes, deus mensageiro e aproximador, símbolo do intercâmbio e da composição entre os contrários que se desatrela da fascinação por um verdade única. E, por diversas vertentes, com destaque para a discussão sobre a temática da morte, traçam essa interlocução entre o Barroco e a Pós-Modernidade.

Quanto a essa mesma Pós-Modernidade, Gisele Falbo se interroga: Morte da arte ou outra-coisa? E confronta, como adiantei acima, a posição de Baumgart, que reflete sobre a função social da arte, como cambiável através dos tempos, com a posição de Lacan que questiona, mais especificamente, a finalidade da arte para o humano, enquanto algo que se mantém constante ao longo do tempo, não se confundindo com sua função social, que muda conforme os mais variados interesses. Nesse sentido, a autora traça um fio que liga a pintura rupestre à arte contemporânea. E exatamente questiona a morte da arte quando destaca as conseqüências da ciência invadindo a arte. Ela verifica que certas expressões da dita arte contemporânea, na qual, como resultado de um crescente domínio da visão, através do que veio se desenvolvendo, desde os Quatrocentos italiano no campo da perspectiva geometral, que tem relação com a instituição do sujeito cartesiano, se verifica o advento da ciência invadindo mais e mais a arte, marcando uma crescente desvinculação desta com o sagrado, que de certa forma, preservava o mistério do vazio sobre o qual gravitamos e que arte sublimava. Entretanto, uma série de artifícios e invenções, dos quais o Barroco foi um deles, a arte retorna à sua finalidade original.

Essa mesma dimensão de objetividade aportada pela ciência é a discussão que norteará o texto de Bianca Faveret, no artigo intitulado A Contemporaneidade e seus novos paradigmas: questões acerca da psicanálise e das neurociências. Nele a autora desenvolve reflexões acerca da problemática articulação entre a neurociência e a psicanálise, na medida em que, pelo menos na perspectiva da International Neuro-Psychoanalysis Society, o que é visado é uma integração entre esses campos com a intenção absolutamente suspeita, de proporcionar meios de validação objetiva para os construtos psicanalíticos, como se fosse isso que faltasse à psicanálise. Bianca ressalta que esses pesquisadores, siderados pela perspectiva objetivista de ciência que busca a correspondência entre a verdade e a realidade, parecem não se aperceberem de toda a dimensão interpretativa condicionada pelo contexto sócio-cultural, que participam da atividade de pesquisa, vindo a constituir-se como uma elaboração desse mesmo contexto. Para melhor explicitar essa redefinição contemporânea dos paradigmas científicos, a autora se apóia, sobretudo, nas teorias de Thomas Kuhn, e sustenta, com Freud, a improdutividade de se tentar subsumir a psicanálise a qualquer outro campo. Bianca valoriza a interlocução, mas interlocução não é subserviência. Há aí uma vasta distância.

Assim finalizamos essa apresentação das reflexões propostas nesse número cinco de nossa revista, que pode ser tomado, numa certa perspectiva, como um leque de possibilidades para se focalizar os desdobramentos da concepção de ciência, que trouxe implicações diversas, para o campo das artes, do pensamento e da cultura de uma forma geral nas suas expressões contemporâneas. Espero que a fecundidade destes textos lhes traga tanta satisfação quanto a que tive na leitura dos mesmos.

Por Denise Maurano Mello




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Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:40
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Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:40
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Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:41
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Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:41