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Revista v. 04, n. 01

Neste editorial, lhes apresentamos o primeiro número do quarto volume de nossa revista. Para ele, selecionamos sete belos trabalhos que vêm corroborar, de diferentes modos, nosso interesse em articular arte, cultura e psicanálise. Assim, nossos colaboradores provêm de diferentes áreas. Dialogaremos com pesquisadores da literatura, da música, da psicologia e da psicanálise.

Organizamos este número de maneira a começarmos por uma discussão que enfatiza a dimensão contundente da linguagem oral. Em “A poética do Caos-mundo: diálogos entre oralidade e escrita”, a professora Enilce Albergaria Rocha, ressalta o quanto que, diferentemente do que se passava na Grécia Antiga, onde a escrita registrava obras da oralidade memorizadas pelos falantes, esta tornou-se paulatinamente abstrata, referida a um “ ser” humano idealizado, passando a reivindicar linearidade, clareza, marcando um imobilismo característico mesmo do ato de escrever. Em contrapartida, a oralidade é inseparável do movimento. Falar implica um ato corporal, e, eis que no mundo do movimento que é o nosso, se reivindica a presença da oralidade nas literaturas.

Recorrendo a Glissant, a professora alerta para uma desconstrução desse “ser” metafísico idealizado pressuposto pela escrita, marcando a importância da dialética entre esta e a oralidade. Ela lembra inclusive que o destino das línguas está associado à relação entre oralidade e escrita. Assinala que a sensibilidade humana irá elaborar linguagens que superarão as línguas, e, estas linguagens integrarão diversas dimensões, formas, silêncios, representações que serão absorvidas como novos elementos das línguas.

Esse caráter dinâmico e revolucionário da oralidade será, curiosamente, retomado no segundo trabalho selecionado, que é “ O objeto sonoro em Freud” de Cláudio Munayer David, a partir do caráter musical da fala. Num minuncioso trabalho, o autor começa por observar que os avanços tecnológicos da obstetrícia, como por exemplo, o Ultra-Som 4-D, revelam a anterioridade das impressões sonoras na constituição do psiquismo, marcando uma intervenção privilegiada na organização pulsional. Volta-se então, para a função da música, como abrangendo fenômenos psíquicos e culturais que ultrapassam em muitos aspectos as delimitações dos conceitos convencionais de estética. Faz um breve histórico desta, que em certos momentos e lugares, veio a ser uma instituição oficial, dando margem a que nos perguntemos : de que maneira nossa música, e, mais do que isso, nossa musicalidade, influencia no nosso modo de ser, tanto do ponto de vista de nossa singularidade , quanto da constituição da cultura de um povo, no nosso caso, povo brasileiro?

O autor lembra que, de um lado, a Igreja Medieval punia severamente quem utilizasse elementos musicais considerados proibidos como, por exemplo, o famoso “diábolo” o intervalo diatônico de maior conflito harmônico, associado a imagens de tensão e ansiedade. De outro, as vozes do Canto Gregoriano, a exemplo dos Mantras budistas ou hindus, cantado em uníssono, que é associado a afetos de comunhão e plenitude.

Nessa linha de pensamento em que ressalta a voz como padrões de tom, timbre, ritmo e intensidade, investiga o porquê, sendo a psicanálise pautada pela utilização do dispositivo da fala, a música, ou a musicalidade, não obteve, até agora, a justa atenção por parte dos psicanalistas, a começar por Freud.

Porém, seguindo sua pista e retomando dele, o “Projeto para uma psicologia científica” (1895) no qual o psiquismo é concebido como um aparelho capaz de transmitir e de transformar energia, Cláudio ressalta que segundo o mestre, os investimentos da fala são formados pela associação de neurônios y (memória) com as representações sonoras que, por sua vez, se encontram associadas com as imagens motoras. O investimento nas imagens sonoras permite ao próprio eu reinvestir a informação de descarga, possibilitando a passagem de quantidades que deixam traços na forma de lembranças. Assim, sendo a inervação da fala, a primeira a ser fortemente investida pelos impulsos somáticos, o grito, ao retornar pela audição, cria os primeiros traços de lembranças, fazendo valer a imagem sonora como meio fundamental de expressão psíquica.

Curiosamente, essa questão do grito aparece no trabalho “Francis Bacon: um grito suspenso na distorção da imagem” de Beatriz Elisa Ferro Siqueira. Neste, é destacado que a psicanálise constata que no grito articula-se, ao mesmo tempo, um silêncio e uma voz que incorpora a alteridade do que é dito. Ou seja, de certo modo, nossa voz nos vem do Outro, mas ela guarda um silêncio que vem ecoar no vazio dessa falta de garantia do Outro, tendo por função modelar esse vazio. A autora faz uma análise fecunda da obra de Francis Bacon destacando sua obsessão pelo grito, o que o faz fizgado em suas pinturas, pelos movimentos da boca e o formato dos dentes.

Destaca que a estética de Bacon é difícil, porque, o pintor atira-nos o real na cara, retratando a brutalidade dos fatos com a violência íntima que lhes é inerente. Sua obra nos tira da rotina do olhar e captura o espectador transfigurando o aversivo em algo convidativo ao olhar. A psicanalista lembra, com Freud, que é esse “convite” que a obra de arte porta que faz com que o trabalho do pintor ganhe valor, inclusive comercial, quando este aborda, através de sua obra, o enigma do visível. Deste modo, a obra apresenta-se como uma armadilha para o olhar, satisfazendo assim o que se pode chamar de apetite do olho, o que Bacon faz com mestria.

O artigo seguinte, trata também da arte, e, sobretudo, de sua função. Maria da Penha Simões em “À sombra do feiticeiro e da Pop Art”, recorre a uma das imagens mais antigas produzidas pelo homem, pintada na caverna Les trois frères, na França, batizada como Feiticeiro, para afirmar que tal imagem atesta a inserção dos homens do período paleolítico na dimensão do simbólico, inaugurando um plano de cultura, por mais rudimentar que esta ainda fosse. Essa estranha figura que parece dominar o recinto povoado de animais selvagens, revela em sua estranheza o encontro do definido com o indefinido, tal como as figuras híbridas o fazem  o Minotauro, a Esfinge e diversos monstros legendários que parecem portar a ameaça do desconhecido, revelando a alteridade como o estranho, mas também curiosamente, como o familiar.

A autora sublinha a dimensão na qual a arte possibilita um certo contato com o que Freud designa como a plenitude de gozo perdida na inauguração do movimento desejante. A obra de arte, ganha, de certo modo, o estatuto da tal Coisa perdida. E será diante disso, que ela introduz sua discussão acerca da Pop Art, na qual as obras a ela referida, são designadas por produtos da mass media. E daí, em se tratando de produção, qual o lugar para a criação?

Maria da Penha esclarece que esse movimento iniciado na Inglaterra teve a adesão de jovens artistas que integravam em seus trabalhos, elementos da cultura popular, abrindo caminho para uma nova sensibilidade estética que subvertia a distância entre as belas-artes e os produtos de consumo de massa. E analisa de que maneira, ainda que lidando com produção, ela não tira de cena, para aqueles a quem consegue afetar, a dimensão do remetimento, ao seu modo, a um para-além, onde está o que nos falta  ethos, morada da criação.

E, já que estamos falando de criação, de falta, nada mais oportuno para que nesse momento seja introduzido o tema do artigo de Bruno Wagner D´Almeida de Souza Santana, “Sobre o feminino”. Digo isso porque o autor, valendo-se de referências de Freud, argumenta que da perspectiva na qual a psicanálise articula a dimensão psíquica da diferença sexual, tudo parece corroborar para a idéia de que é a referência fálica que vem funcionar com divisor de águas, inaugurando dois campos: aquele dos que tem o falo e o dos que são desprovidos dele, onde o feminino é aí localizado por referência à falta, falta referida ao falo.

O autor do artigo mostra de que modo, Lacan acolhe a proposta freudiana, mas dá um passo para além dela. Indica a possibilidade de uma orientação que toca a esfera do que se encontra para-além-do-falo, para além do sexual, delimitando o feminino por referência a isso. Desta forma, o feminino é postulado enquanto enigma insolúvel que escapa a possibilidade de ser apreendido pelas palavras, indicando um campo no qual essas, efetivamente, escapam. Assim, se a máscara das palavras se retiram para designar o feminino, cabe a cada mulher inventá-lo, mascarar esse vazio, atribuindo-lhe alguma dimensão possível de visibilidade. A maquiagem, as vestes, os ornamentos servem a isso, constituindo a mulher como efeito de uma criação que tem no amor um aliado imprescindível, dado que este é referido, desde O Banquete de Platão, via o discurso de Diotima, como o que faz o não ser, vir a ser.

Essa discussão acerca do feminino e de suas relações com a criação será retomada no artigo seguinte “Efeitos do encontro com o sexual na psicose: um estudo de Freud a Lacan” de Cláudia Richa. Ela parte da hipótese freudiana que destaca a irrupção de um impulso homossexual como a causa precipitadora do delírio paranóico. Assim, frente a uma fantasia homossexual intolerável, a pessoa anteriormente amada, passa a ser odiada e temida, transformando-se no perseguidor. A feminilização do sujeito não se apresenta como uma escolha, mas algo que se impõe, causando-lhe horror.

Como sabemos, para a elaboração dessa hipótese, Freud se utilizou de um livro autobiográfico de Schereber. Um sujeito que descreveu os passos que o fizeram desviar-se da nomeação de Juiz Presidente do Tribunal de Apelação, tomado que estava por uma vivência de emasculação, na qual sua alma já lhe tinha sido roubada, e seu corpo em decomposição seria entregue para fins de abusos sexuais contra a “ordem das coisas”.

Cláudia ressalta que o caminho de estabilização encontrado por Schereber deu-se na via de uma feminilização consentida, na qual ao invés de perseguido, através de uma nova construção delirante, ele passa a sentir-se o escolhido por Deus, para a procriação de uma nova geração de homens, tendo como finalidade a salvação do mundo. Desta forma pôde reinvestir seu corpo, antes putrefeito, vulnerável à fragmentação e ao gozo do Outro, e agora idealizado e reunificado na forma feminina, possibilitando algum resgate narcísico via por onde, finda o “crepúsculo do mundo” e a “ordem das coisas” é restituída, o que lhe permite uma posição na partilha dos sexos.

Como a autora do artigo demarca, essa saída pela feminilização tem uma abrangência muito maior de que podemos imaginar. Quando retomada pela elaboração lacaniana, essa questão deixa de ser pensada como referida a homossexualidade, passando a ser tomada como efeito do não posicionamento do sujeito na partilha dos sexos. Ou seja, indica um mais aquém da escolha sexual, uma problematização psíquica anterior as escolhas edípicas.

Essa demarcação da psicose como efeito de um modo defensivo de operar do psiquismo, no qual o chamado “empuxo-à-mulher” é paradoxalmente sinal de devastação e meio de “cura”, nos mostra o quanto há o que pesquisar nesse campo. E, certamente, para isso é fundamental que a idéia de que a psicose é expressão de degeneração, ou algo similar, onde nada há o que se esperar, deve ser aposentada por invalidez.

Os avanços que a Reforma Psiquiátrica vem encontrando no Brasil, malgrado todas as restrições a que esta teve que ser submetida, são contundentes. E, para nos informarmos melhor sobre seus passos, o artigo de Gina Ferreira “ A reforma psiquiátrica no Brasil: uma análise sócio-política”, ao qual passaremos agora, nos é de grande ajuda.

Nele, a autora analisa a Reforma desde 1986, que veio constituindo as bases para a reorientação da assistência psiquiátrica em nosso país. O poder centralizador do hospital psiquiátrico e o elevado índice de internações foram tomados como causas estruturais das condições desumanas a que eram submetidos os pacientes psiquiátricos. O hospital psiquiátrico tinha passado a ser a resposta de intolerância e exclusão social. A análise contextualiza o panorama econômico, político e cultural do país dado que ela se desenvolveu no campo da luta dos movimentos sociais, na conjunção da sociedade civil e do Estado, ante o fortalecimento da sociedade civil. E mais do que isso ela reflete tanto acerca da irreversibilidade dos avanços obtidos, quanto de suas condições de sustentabilidade. Um trabalho preciso e instigante.

Chegamos assim, ao final desse editorial que teve por objetivo lhes apresentar uma prévia do que encontrarão nesse novo número de nossa revista. Esperamos lhes ter instigado o suficiente, a fim de que sigam conosco. Agradecemos desde já sua companhia.

Por Denise Maurano Mello




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Bruno Carvalho,
8 de out de 2016 21:28
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Bruno Carvalho,
8 de out de 2016 21:14
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Bruno Carvalho,
8 de out de 2016 21:14
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