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Revista v. 04, n. 02

Psicanálise & Barroco em revista, neste segundo número do quarto volume, reúne seis belos artigos, três dos quais abordando a temática do feminino na perspectiva psicanalítica, e três outros, de diferentes maneiras, focalizando questões relativas à memória, à história e à literatura.

Não há quem não tenha ouvido falar, recentemente, do livro O Código da Vinci, do escritor Dan Brown. O sucesso do livro foi tal, que foi até transformado em filme, depois da venda record de cinqüenta e cinco milhões de exemplares. Priscila de Souza Moreira, Tânia Mara Silva Benfica e Tatiana Salzer Rodrigues no artigo que escreveram sobre este livro, percorreram esta obra para sublinhar, especialmente, a questão do Sagrado Feminino. Destacam que o famoso Santo Graal não é como se pensava, o Cálice de Cristo, usado por Jesus na última ceia, mas sim é a representação de uma mulher ¾ Maria Madalena ¾ que com Cristo, vem a gerar uma linhagem real. Essa valorização do feminino, ou da conjugação, masculino-feminino, é muito presente nos rituais pagãos, e mesmo na tradição judaica primitiva, a qual revela através do tetragrama para o nome sagrado de Deus, YHWH (Jeová), a indicação da união física entre o masculino (Jah) e o feminino (Havah).

A reverência ao valor à força do feminino, da Natureza, da Mãe Terra, sai de cena com a ascenção da Igreja Católica. A partir de então, o feminino passa a ser demonizado e considerado impuro, procedeu-se a uma verdadeira campanha nesse sentido. O Priorado de Sião,uma das mais antigas sociedade secretas, que teria tido adeptos ilustres como Leonardo da Vinci e outros, teria por função, reverenciar o Sagrado Feminino, proteger o segredo que envolve a adoração da deusa pagã, buscando restaurar um certo equilíbrio ao mundo. As autoras relacionam esta tendência apontada na obra, com a visada presente nas teorizações de Lacan sobre o gozo, a qual propõe a existência de uma dualidade de gozos, um do lado masculino, referido à fruição da falicidade, e outro relacionado ao feminino, situado mais além do gozo viril.

Essa temática da dualidade de gozos, focalizando mais especificamente o gozo feminino, muito próximo, segundo Lacan, do que se denomina como gozo místico é abordada no artigo de Ameli Gabriele Batista Fernandes e Nilda Martins Sirelli, intitulado “O estandarte erguido sobre mim é o amor”. Neste, as autoras pesquisam em textos de Santa Teresa d’Ávila e de São João da Cruz, seus testemunhos sobre o chamado gozo místico, buscando relaciona-lo ao feminino enquanto indicativo de uma experiência que se encontraria mais além da afirmação de si mesmo, experiência mais além da sideração fálica. Lacan valoriza o depoimento dos místicos, como a indicação de um campo situado como fora-do-sexo, no qual o amor comparece como fazendo suplência à insuficiência da satisfação sexual. Os místicos se colocam como profundamente voltados para esse além do sexual que não se dá sem a consideração de uma certa dose de sacrifício, sacrifício entretanto, que é acolhido de bom grado, mediante a beatitude encontrada pela experiência da fusão com Deus.

Se, na dinâmica dos processo psíquicos, pulsão sexual e pulsão de morte, encontram-se imbricados, as questões relativas ao gozo mais além do sexual, parecem vir enfatizar a atuação silenciosa, mas nem por isso menos importante, da pulsão de morte, na qual, o vazio ineliminável da vida, ganha versões grandiosas, via uma experiência de entrega, na qual aspectos vigorosos da criação ¾ ponto onde o mortal se aproxima do imortal ¾ se colocam em jogo, assumindo o centro da cena, e indicando novas saídas.

O contato com o vazio, com o horror a ele relativo, é a questão abordada pelo trabalho de Adriana de Castro Longo, Evelyne Rosa Coelho e Sílvia Alvim de Paula, O horror, o belo e o feminino em Frida Kahlo. Neste, as autoras, pretendem dar expressão ao feminino, na perspectiva analítica, a partir de certos aspectos da história e da obra de uma mulher, a pintora mexicana, Frida Kahlo, considerando que esta, acolhendo o horror que o vazio engendra, revela um savoir-faire com o desamparo, dando-lhe expressão criativa. Tomando o feminino na dimensão na qual ele vem revelar, enquanto enigma absoluto, o ponto limite da representação, onde a anatomia da mulher em sua referência à falta, à confrontação com o furo, deixa entrever a face traumática do real enquanto o inominável, o artigo, através da abordagem das vicissitudes da vida da pintora, marcada por graves problemas físicos, decorrentes de terríveis acidentes, vem indicar a solução sublimatória encontrada pela mesma. Sua relação ao belo se impõe, não apenas pela via do que produz com suas pinturas, mas também através do que cria para se cobrir e de adornar. A dor imposta a seu corpo é proporcional ao investimento que faz para o adornar. Pela via do belo, Frida empreende sua transfiguração do horror, na via de um gozo que excede aos limites do representável.

O próximo artigo desse número, embora de um modo diferente, indicará também o limite do representável que encontra na arte, ou melhor, na literatura, seu socorro. Seu autor, o historiador João Estevam Lima de Almeida, propõe que diante do limite da historiografia, se faça uma leitura metodológica da documentação literária. Ele trabalha mais especificamente com a tragédia de Eurípedes, As Bacantes situando sua contribuição ao trabalho do historiador da Antiguidade. Sublinhando a fecundidade do diálogo entre essa duas áreas. Almeida demonstra que a História, nascida na Grécia Antiga teve sua origem ligada ao mito. Esta, ainda que inaugurando um método próprio e nomeando um novo lugar para a apreensão dos fatos, já nasce ligada a literatura e tem no mito, um ponto de intersecção com esta última.

O mito, apesar de ser a-histórico, por não ter nem cronologia nem temporalidade definida, aparece como grande sistematizador do passado dos gregos, e nós diríamos que não apenas dos gregos, mas de todos nós, na medida em que mitificamos nossa própria história. Parece haver uma aproximação entre o mito e a realidade factual, tanto na história, quanto na memória, tal como demonstra a clínica psicanalítica, sempre tão interessada na relação com as origens e deparando-se com o limite ao saber que aí se impõe.

Almeida, ao abordar a narrativa histórica enfatizando sua perspectiva humana, percebe a literatura grega como uma elaboração ornamental dos acontecimentos. Alerta que a contribuição que uma tragédia como As Bacantes, dá ao historiador não está em ler nas entrelinhas, mas em tomá-la como um documento que expressa a visão de uma autor contemporâneo ao período que se está estudando, e aí abarcar sua dimensão religiosa, social e política. Por exemplo, podemos tomar a tragédia citada como fonte direta e ao mesmo tempo indireta do que foi o Dionisismo como religião, nos instruindo sobre como as mulheres, as mênades procediam no culto a esse deus. Trata-se aqui de uma leitura possível do que se deu de fato. Neste âmbito, ficção e História se encontram e seu ponto de intersecção é o mito. A História toma um caminho diferente, mesmo oposta à literatura, porém não pode recusar sua fecunda contribuição.

Já Adriana Helena Albano, da área de Letras, recorrendo também a temática da literatura, mas analisando pontualmente o texto autobiográfico, nos brinda com um fecundo estudo da escritura das memórias, valendo-se para isto de contribuições advindas do pensamento de Jacques Derrida, Sigmund Freud e Samuel Beckett. Ela toma como ponto de partida a abordagem da memória como sendo ela própria o psiquismo, e não uma de suas particularidades. A partir daí avalia o modo como a própria existência de um texto autobiográfico acarreta em criação de sentido como um vir-a-ser para o próprio escritor. Albano argumento que este pode viver através da escritura, a experiência do não ser, para refazer-se depois dela, o que implica riscos, e por vezes atemoriza, Afinal as transformações não acontecem tranquilamente. Algo de estranho, de misterioso, tem aí a oportunidade de mostrar sua face, o que faz com que a escrita autobiográfica se revele também como uma forma de confissão, e de contato com uma certa dimensão do sagrado. Busca-se pela escrita nomear o inominável, visando também uma transcendência para além da sepultura. A autora, demonstra seu entusiasmo pela escritura quando defende a idéia de que só através do texto se pode negociar a incomensurabilidade da existência.

Chegamos agora ao último artigo desse número oito. Trata-se do texto da psicanalista Helena D´Elia, que de certa forma, aborda um aspecto curioso da memória – a saudade, para através de textos como de Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço, refletir acerca de sua prática clínica com emigrantes portugueses, analisando a maneira particular pela qual a relação com o Outro da cultura costuma incidir nesse povo. Parece que a intraduzível palavra saudade, vem indicar uma maneira de ser no mundo, uma modalidade de relação com a memória e com a sensibilidade à temporalidade. D´Elia cita Pessoa que considera a saudade como uma espécie de rememoração criativa, que busca conferir ao que não mais existe, uma plenitude às avessas. Porém alerta que esta mesma força criadora pode voltar-se para seu aspecto nefasto – a melancolia. Presença constante nos portugueses que, de certa forma, revela um luto não assumido diante da renúncia ao gozo e ao poder. Com Lourenço, a autora alega que essa tendência melancólica incrementa nos portugueses um ressentimento que aprisiona sua existência individual e sua vida coletiva, numa rede de servidão como forma de laço social. Nesse contexto, mecanismos de identificação sustentam o pai ideal como estatuto intocável, promovendo com isso um fechamento do inconsciente. Alerta então que o trabalho da psicanálise não será o de remeter o sujeito a esse sentido fechado em sua cultura, mas conduzi-lo à dimensão da descontinuidade, da equivocidade, buscando favorecer de uma certa forma, a dimensão criadora da saudade, de modo a possibilitar que ele viva lá onde ele habita.

Concluimos portanto, mais esse número de Psicanálise & Barroco em revista, que oferecemos aos seus estudos e aos seus deleites, esperando que sua leitura lhes agrade tanto quanto nos agradou.

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Tânia Mara Silva Benfica, Priscila de Souza Moreira e Tatiana Salzer Rodrigues

Nilda Martins Sirelli e outros

Evelyne Coelho e outros

João Estevam Lima de Alemeida

Adriana Helena de O. Albano

Helena D’Elia
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Bruno Carvalho,
9 de out de 2016 10:09
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9 de out de 2016 10:09
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