Revistas‎ > ‎

Revista v. 05, n. 01

Estamos inaugurando o primeiro número do quinto volume de nossa revista. Com ele, completamos nosso quinto ano de funcionamento. Apenas o trabalho empenhado de toda uma equipe nos permitiu isso. Cresce o volume de artigos que tem sido a nós enviados, o que nos demanda o aprimoramento de nossos critérios de seleção.

Para este número selecionamos oito belos trabalhos, de colegas das mais diferentes procedências, na sua maioria referidos a literatura, ou melhor, ao que a literatura pode nos ensinar acerca da cultura e da psicanálise.

Para começar, “O exílio em “Páramo” de Guimarães Rosa: dilaceramento e superação”, trabalho enviado pela professora Maria Luiza Scher Pereira, nos brinda com uma curiosa discussão sobre a positividade do exílio para o intelectual. Situando Guimarães Rosa como intelectual em trânsito entre a Europa e a América Latina, entre o sertão e o mundo, valoriza a contingência de colocar-se fora de casa para obter um olhar deslocado, crítico. O que possibilita para o intelectual uma salvação para além do dilaceramento, na qual a escrita situa-se como uma reinvenção da memória e da identidade. Nesse sentido, a tarefa do escritor seria, como propõe a autora, a criação de um lugar para que o Outro possa falar. O fato de Guimarães ter utilizado certa feita o pseudônimo “viator”, corrobora com a idéia de situa-lo, ao nosso modo, como um “homo viator” barroco não apenas pelo ritmo e profusão de detalhes pelo qual busca dar conta da diversidade que descreve, mas pelo jogo que estabelece entre a alta cultura e a tradição popular, enriquecendo esse aspecto original do barroco brasileiro, que se coaduna com o hibridismo e a mescla que estão presentes na cultura latino-americana.

Esse olhar sobre o exílio que positiva o estranho como fonte de criação, podemos articula-lo, de certa maneira, com o trabalho de Cassiana Lima Cardoso e de Francis Paulina da Silva intitulado “Cultura e sociedade pelo viés poético de Mário de Andrade” , na medida em que este último, frente a sociedade de sua época, observa-se como um estranho, em um jogo de espelhos e contrastes, constituído e constituinte da crueza e rudeza do ambiente caótico que se configurava na São Paulo de seu tempo, em franco crescimento. Ele, nas diferentes interações que promove com seu meio, através das várias máscaras que constituem seu eu-lírico não teme o risco da aventura do fazer poético, sempre às voltas com adentrar o campo do estranho, que em último termo, situa-se no seio de nós mesmos.

Quanto a isso, tomando máscara como morada, o que na designação teatral vem dar sentido ao termo personagem, Schüller, autor citado pela autoras do artigo, lembra curiosamente que “se derivarmos anthropos (homem) de anti (diante de) e ops, rosto, o próprio homem se apresenta como alguém que anda de rosto velado”. Donde ele conclui que a “cadeia de máscaras não termina” (SCHULLER, 2001; p.179). Nesse sentido, na obra de Mário, as máscaras se renovam tal como ele mesmo.

Essa dimensão do estranho, da estranheza, continua fazendo incidência nesse número da revista, também no artigo de Gláucia Dunley, “Os visitantes da noite: uma parábola sobre as petrificações”. Neste, a autora, vale-se do filme “Os visitantes de noite”de Marcel Carné, 1942, que tematiza o amor e a liberdade, para ilustrar conceitos nietzschianos como nihilismo, vontade de poder e pensamento do eterno retorno, valorizando-os como portadores da estranheza necessária para fazer vacilar nossas certezas e nos tirar de nossas petrificações. Aqui novamente a presença da estranheza é tomada como solidária ao ato de criação. Ela observa a falta de estranheza do homem contemporâneo como vinculada a uma impossibilidade deste, de admitir seu desamparo real. Cita esta pérola de Hölderlin que diz “onde mora o perigo, é lá que também cresce o que salva”, e menciona o terror como o que vem reapresentar ao homem seu desamparo. Defende um retorno ao dionisismo pré-metafísico, ou seja, ao trágico, criticando a usurpação da vontade de arte pela vontade de racionalidade da metafísica. Valoriza o estatuto de Dioniso de deus estrangeiro, que tem por vocação revelar-se mascarado, onde a máscara lhe possibilita metamorfosear-se, revelar-se ao mesmo tempo em que se oculta.

Curiosamente o artigo de Bruno Wagner Sant’Anna, “O subsolo de um e de outro: Freud em Dostoiévski ou Dostoievski em Freud”, aborda a psicanálise como o que veio para indagar uma terra estrangeira: o inconsciente. E trabalha a proximidade entre os dois autores que acolhem a dimensão positiva que há no negativo, valorizando o pensamento de paradoxo. Tanto a literatura dostoievskiana, quanto o pensamento psicanalítico subvertem o ideal da ciência para dar primazia ao sujeito desejante, enfatizando uma concepção trágica da existência, e tomando a tragédia como o que evidencia a zona limite entre o desejo e a morte.

No artigo “Psicanálise: memórias e escritos de Pedro Nava”, Vanda Arantes do Vale recorta um aspecto da vida e da obra desse médico poeta, em que ele se encontra sensibilizado pela psicanálise, tomada como um saber que veio do estrangeiro e que quanto aos doentes, ensina que é conversando que a gente se entende. Ela nos conta que foi Iago Pimentel quem apresentou a ele proposta de Freud, proposta esta que se imiscui com a vida social da Belo Horizonte dos anos 20, envolvida com o Modernismo. Pelo viés crítico através do qual a psicanálise revoluciona a psiquiatria, Nava denuncia a dimensão punitiva presente na intervenção médica e ainda acolhe a psicanálise como instrumento de ampliação do universo intelectual e artístico brasileiro.

Sâmara Rodrigues de Ataíde e Francis Paulina da Silva nos contemplaram com um artigo que também reflete sobre o universo artístico brasileiro. Em “A irreverência social nas obras Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, e Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, as autoras mostram a influência do teatro português no estilo satírico de Ariano Suassuna, no qual diversos setores da sociedade são criticados, de forma a destacar que uma das funções sociais da literatura é a problematização da realidade, via por onde se busca com humor, corrigir a sociedade. Aqui, vale destacar que embora as duas peças versem sobre o conflito entre o vício e a virtude, característica dos autos, curiosamente com o brasileiro Suassuna, a salvação é mais fácil de ser conseguida. Cristo é de cor negra e Nossa Sra. da Conceição Aparecida, advogada dos pecadores e emblema brasileiro, já que a santa é padroeira de nosso país e de nosso povo, revela a presença do feminino em nossa visão de mundo. O que, a nosso ver, consente com a divisão da alma e sua oscilação entre dois pólos, o que parece se aproximar da abordagem psicanalítica do sujeito enquanto sujeito inexoravelmente divido. Isso também nos dá elementos para um aspecto de nossa pesquisa que vem se incrementando ao longo de nosso trabalho, no qual nos interessa ampliar nossa investigação tanto na direção da relação da psicanálise com o feminino quanto sobre a presença do feminino na cultura brasileira.

A temática da arte reaparece no texto que Rosemere Rocha Faustino e Marilda Maestrini escreveram com minha colaboração, “Intervenção da psicanálise e da expressão barroca através da experiência de sensibilização estética”. Sob o argumento de que a experiência estética é anterior a organização da racionalidade formal, uma vez que, como Freud nos ensina no texto “A Negativa”, a função do juízo qualificativo é pré-requisito para o acionamento do juízo que reconhece a existência de algo, a introdução de oficinas de sensibilização estética nas escolas, viria a funcionar como uma alfabetização estética que visa ampliar tanto os recursos de expressão criativa dos sujeitos, quanto sua faculdade de pensar. O relevo dado a experiência estética indica uma visão de sujeito que encontra afinidades com aquela que norteia o barroco, na qual este só pode ser abordado como impregnado de mundo e mesmo, confundido com ele. E, é nessa perspectiva que a ética que orienta tanto o funcionamento do inconsciente, quanto a intervenção do psicanalista, parece encontrar na expressão barroca seu correspondente estético.

É essa torção promovida no modo clássico, objetivo, racional de se ver o sujeito, a vida e o mundo, que vigora no seio de nosso desejo. E é sobre isso que versa o último trabalho número de nossa revista. Em “Da demanda ao desejo, a função da recusa na anorexia”, Alinne Nogueira da Silva, circunscrevendo as contingências da anorexia, mostra o quanto nesta, o nada que o sujeito come, se coloca como um estranho objeto a ser investido, positivado. O desejo aparece então como desejo de manter um desejo insatisfeito, via pela qual este permanece funcionando. No caso portanto, a recusa absoluta à satisfação comparece como defensora da sustentação do desejo, na qual o alimento, ou sua recusa, aparece como moeda amorosa na relação com o Outro, sobretudo quando este Outro, surgindo como cuidante, confunde o dom de amor com os cuidado alimentares, reduzindo tudo ao campo da necessidade. Resta então, ao sujeito, clamar, ao seu modo, que nenhuma satisfação de necessidade é capaz de calar o desejo.

Pelo visto, se é que podemos tecer um ponto de convergência entre os diversos artigos selecionados nesse número, este parece ser o estranho, tema inclusive bastante caro a Freud. O acolhimento do estranho, do estrangeiro, nos remete à função do que ele recorta do vocabulário alemão Unheimlich.(FREUD, S., 1919, p.215) Trata-se de uma “inquietante estranheza”, mobilizada por elementos que ao invés de serem novos e por isso assustarem, são, ao invés disso, familiares desde muito tempo. Ou seja, o estranhamento não seria propriamente decorrente da manifestação do novo, mas do retorno de algo que é reconhecido como íntimo e familiar – designado pelo vocábulo heimlich – , mas que deveria permanecer oculto, por isso o espanto que ele carreia com sua aparição. E pelo visto, malgrado o dispêndio de energia que esse espanto promove em nós, esta parece ser a via pela qual podemos nos manter despertos e criativos na lida com o desejo. É nesse estado, que os convidamos a freqüentarem conosco mais esse número de nossa revista. Sejam bem-vindos!

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Maria Luiza Scher Pereira

Cassiana Lima Cardoso

Glaucia Peixoto Dunley


Vanda Arantes do Vale

Sâmara Rodrigues de Ataíde

Rosemere Rocha Faustino

Aline Nogueira Silva