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Revista v. 05, n. 02

Psicanálise & Barroco em revista chega ao seu quinto ano de existência com o lançamento de seu primeiro número do quinto volume. Ao longo desses anos, temos conseguido manter a articulação entre a arte, a psicanálise e a cultura, como eixo principal dessa publicação, quer diretamente através da temática privilegiada pelos artigos selecionados, quer através do modo como propomos que os textos sejam abordados e se relacionem entre si.

Neste número, como aliás, não é raro ocorrer, temos a presença reiterada de certos temas que nos são endereçados, e que aparecem em alguns dos diferentes artigos selecionados, a partir de focalizações bastante diversas. Referimos-nos aqui, mais precisamente, ao feminino, abordado seja artisticamente através de obras que merecem destaque, seja por suas manifestações na densidade e na dinâmica da vida. Junto com esses artigos, outros três focalizam diferentes temas como a música e o mito, a psicose e a relação do gozo com o sintoma.

Comecemos pelo texto de Heloneida Neri, que, elaborado a partir de sua dissertação de mestrado, trata da questão: O feminino e o crime passional. A autora, a partir de sua experiência de atendimento a detentas em uma instituição carcerária, traz achados bastante interessantes mostrando de que maneira a ética da psicanálise pode se fazer valer, ainda que em condições bastante adversas. Nesta perspectiva, a escuta proposta está bem longe de ser moralizante ou culpabilizante. O que é visado, como acontece em qualquer contexto psicanalítico é que as intervenções busquem implicar o sujeito nos seus atos, em sua responsabilidade desejante.

A autora constata de que maneira, na maioria dos atos transgressivos das mulheres, a paixão e o amor, aparecem como causas, e menciona o dado curioso que revela que do número total da massa carcerária, apenas 6% são mulheres, o que evidencia que a criminalidade feminina é imensamente menos significante quando comparada à masculina, 94%, merecendo assim ser mais bem debatida. Destaca que “a contribuição da psicanálise ao campo jurídico, não diz respeito a uma intervenção, mas, sobretudo ao entendimento do que está em jogo na transgressão como expressão sintomática do sujeito”. Sobretudo no que tange ao crime passional, de um modo muito pertinente, faz cruzar questões relativas ao gênero, na medida em que trabalha com mulheres, com questões relativas à posição feminina tal como esta é abordada pela psicanálise, trazendo diversos elementos que merecem ser objeto de um estudo mais detalhado tanto por parte de juristas, como de psicanalistas.

O trabalho seguinte versa sobre uma mulher que acabou por ser encarcerada, não numa unidade penitenciária, mas numa instituição psiquiátrica, na qual morreu após trinta anos de confinamento. O artigo Camille Claudel – angústia e devastação, de Jean-Claude Soares e Vívian Martins Ligeiro faz cruzar elementos de intensidade passional da biografia da escultora, com suas produções artísticas. Nele, a posição feminina é avaliada em suas conseqüências devastadoras, quando a mulher diante da ausência de um significante que a sustente enquanto tal, ou seja, que possibilite que ela possa se haver com o enigma da feminilidade, recorre à mãe e posteriormente, ao homem eleito, não encontrando em nenhum deles, senão “catástrofe” ou “devastação”. Permanecendo, deste modo, a deriva, frente ao real de um furo onde a angústia revela o sujeito radicalmente desamparado e carente de ancoramentos fálicos.

Na seqüência, o artigo Frida Kahlo: uma vida, de Marli Miranda Bastos e Maria Anita Carneiro Ribeiro aborda, detalhadamente, aspectos da conturbada vida desta pintora para sublinhar dimensões importantes de sua obra e também de sua relação com seus amores. Assolada por diversos acidentes fatídicos, o sonho de vir a ser médica, se substitui pela lida com a arte, via por onde a faticidade encontra meio de expressão de forma a possibilitar que o horror seja transfigurado pela beleza. O belo funciona como um véu que permite uma maior aproximação da morte, já que neutraliza o horror que disso adviria. No texto, o conceito psicanalítico de sublimação comparece como uma chave para se tentar entender o que se passa no processo de criação, e o caráter sensual e feminino dos trabalhos da artista mais do que um estilo, parece indicar uma orientação ética, uma subversão nos padrões viris da pintura e do que através dela pode ser expresso.

A questão do feminino volta a aparecer no artigo de Ana Costa que aborda a arte do cineasta Pedro Almodóvar como fundamentada nos conceitos de feminino e de barroco. Fazendo um breve percurso pela filmografia do artista a autora observa que desde seu primeiro filme a fazer sucesso, Mulheres a beira de um ataque de nervos, ainda que focalizando a mulher, o que o cineasta tematiza é a identidade sexual como fantasia, ou seja, como uma construção marcada pelos clichês de cada tempo. Para sua análise, ela escolhe dois filmes Tudo sobre minha mãe e Fale com ela, que fazem um contraponto na temática do feminino. No primeiro ela observa um desdobramento inter-geracional da representação da mulher insatisfeita, através da focalização de duas personagens que aparecem neste filme: uma, de nome Manuela que perde seu único filho justamente quando este é atropelado ao querer ir atrás dessa outra, uma atriz que representava Blanche, a histérica de Um bonde chamado desejo, peça teatral que passou ao cinema nos anos 50. No outro filme analisado, Fale com ela, através de uma composição barroca de casais insatisfeitos, que prima pela apresentação de corpos em sofrimento, exibe-se a transformação do padecimento em gozo, através de uma construção alegórica. A alegoria cara a arte barroca, comparece no filme vindo servir ao gênio para dar expressão às irresoluções, entraves, ou mesmo possibilidades que recaem sobre o sexual, via o desejo que o anima e que faz uma contenção à desmedida do gozo.

No artigo seguinte Antonin Artaud: arte e estética da existência, a questão da desmedida do gozo encontra no fazer poético desse escritor laureado, uma via de sublimação. Novamente, o tema da sublimação comparece. A autora, Sônia Borges, busca através de uma rica análise da obra de Artaud, alimentar o questionamento sobre a arte e sua função na psicose. Ao criticar a verdade imaginária do senso-comum, movido por um “empuxo à criação” bem próprio à psicose, o escritor se rebela contra o dualismo alma/corpo, produzindo com seus “poemas-corpo” uma convocação a que se repense o lugar da arte e da cultura no mundo contemporâneo. Nessa mesma direção, a autora lembra que, como propõem Lacan, a prática da poesia possibilita um meio de se tratar o Real pelo simbólico, o que evidencia o quanto ela serve, não apenas à arte e à literatura, mas também à psicanálise, razão pela qual esta bem poderia tomá-la como modelo.

Não sem boas razões, a questão da poesia nos remete também à sonoridade e a música, por isso, na seqüência da organização desse número, incluímos o belo artigo de Bruno Portes intitulado Entre o mito e a música: pontuações sobre a estrutura. Nele, o autor referindo-se a Levy Strauss, lembra que este sublinha que o mito e a música são, de fato o mesmo, porque gozam tanto da relação de similaridade, quanto da relação de contigüidade. Além de tanto o mito, quanto a música deverem ser entendidos como uma seqüência contínua, Strauss aponta um movimento ao longo da história, no qual a música veio a assumir a função mitológica que num certo momento foi banida do pensamento ocidental. Ele mostra de que modo, a partir da Renascença, foi como se a música em sua função intelectual e emotiva, ao inventar formas musicais específicas, estilos que alteravam o tradicional, viesse a recobrir estruturas que já existiam a nível mitológico. Desta forma, a música veio desvelar a estrutura do mito. Tendo tanto a música como o mito sua origem na linguagem, a primeira se orienta pelos aspectos sonoros desta, e o segundo veio a ressaltar seu campo de sentido. Neste ponto o autor do artigo, tece algumas hipóteses para tentar abordar a separação radical entre o som e o sentido, fazendo considerações sobre o ponto de incidência de um furo presente na linguagem. Reflexão esta que é utilizada para, retomando o texto lacaniano O mito individual do neurótico, tentar elucidar alguns aspectos da estrutura subjetiva, mais particularmente, da neurose obsessiva.

Fechamos este número com o artigo de Sumaya Hallack Sarkis, O gozo em sua articulação com o sintoma, no qual a partir dos questionamentos provocados pela experiência clínica a autora compartilha com os leitores seu percurso no campo dos achados teóricos da psicanálise, fazendo-o com um frescor e uma clareza que são dignos de nota.

Cabe-nos agora, desejar a vocês uma boa leitura.

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Heloneida Neri

Jean-Claude Soares e Vívian Martins Ligeiro

Marli Miranda Bastos e Maria Anita Carneiro Ribeiro

Ana Costa

Sonia Borges

Bruno Portes de Castro

Sumaya Hallack Sarkis
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Bruno Carvalho,
12 de out de 2016 18:29
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12 de out de 2016 18:29
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12 de out de 2016 18:30
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