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Revista v. 06, n. 01

Psicanálise & Barroco em revista chega ao seu sexto ano de existência lançando seu primeiro número do sexto volume em alto estilo: trata-se de um especial, resultado dos efeitos do evento: 1º. Colóquio Psicanálise, Arte e Barroco que aconteceu na Universidade Federal de São João Del Rei, dentro do Programa do 3º. Simpósio Ciência e Arte, realizado de 8 a 10 de novembro de 2007. Este evento que foi organizado em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz e obteve o apoio do CNPq e da FAPEMIG, foi coordenado por José Sávio Theodoro de Oliveira que o resume no pequeno texto anexo a este editorial intitulado Interlocuções entre o barroco e a psicanálise: múltiplos olhares. 

Nosso procedimento para este Especial foi o de convidar todos que apresentaram trabalhos no evento para encaminharem artigos de modo a serem submetidos ao nosso Conselho Editorial e Conselho de Pareceristas. Este número portanto, é composto dos artigos que foram selecionados a partir desse procedimento. Ele resultou em cinco artigos e dois ensaios, um dos quais é apresentação de uma primeira parte de uma pequena Antologia de Poemas Neobarrocos, inseridos em nossa seção literária, que publicaremos em duas etapas, uma neste número e outra no próximo.

Assim, se nossa revista tem por hábito mesclar temáticas da psicanálise a questões relativas à arte e à cultura em geral, no presente número, trabalhamos diretamente com a interface psicanálise e barroco. Por isso, nada melhor do que começarmos pelo belíssimo artigo de Maria da Penha Simões que funcionará aqui como uma boa apresentação, não apenas do barroco, mas do modo pelo qual esse estilo artístico, por seu modo de proceder, pode lançar luz a diversos conceitos psicanalíticos, facilitando-lhes a transmissão. 

Para isso, a autora enfatiza a contextualização histórica do barroco, tratando-o como efeito de um período de profundas transformações, marcadas pelos achados de Copérnico, ainda no século XVI, Kepler, Newton, Descartes, Galileu, no século XVII, que acabaram por instaurar uma nova concepção do universo, na qual o homem foi descentrado da posição ideal que ocupava até então, tendo que reformular não apenas seu universo estético como também seu proceder ético, sua relação com a vida e com a morte. Diante de tantas transformações a autora norteada prioritariamente por Freud, Lacan, Sarduy e Benjamin, faz uma análise da melancolia, elemento com o qual o barroco é identificado, como um dos pólos dos excessos por ele veiculado.

Em seqüência à temática dos excessos encontramos o oportuno artigo de Alexandre Simões, Narcisismo e Barroco: reflexões sobre o corpo, o sujeito e o excesso, no qual o autor, focalizando o aspecto intemporal do barroco, visa articulá-lo com dimensões dos processos de subjetivação que vão mais além do Pai e dos Ideais. Para tal, trabalha o conceito freudiano de narcisismo em sua relação ao corpo - afinal como nos alerta Freud, o eu é acima de tudo, um eu corporal, - indicando o corpo como uma maquinaria de gozo, proposta de Lacan que remete ao barroco em sua forma própria de evocar gozo. Nesta perspectiva o autor se pergunta: que destino dar aos excessos? Questão mais do que pertinente em tempos como os nossos.

José Sávio Theodoro de Oliveira, em seu trabalho O barroco como ferramenta metodológica, tocará nessa questão do mundo contemporâneo, ao articular o aspecto no qual uma ética depreendida da estética barroca – ética esta afeita àquela sistematizada por Lacan como ética da psicanálise –, pode funcionar como elemento crítico ao critério de acumulação de bens, pregado pelo capitalismo desenfreado presente na contemporaneidade. 

A questão da ética será retomada no artigo de Bárbara Maria Brandão Guatimosim O belo e o sublime, no qual a autora trabalha a idéia da existência de um trágico estrutural na psicanálise, norteado por uma ética impura e uma estética barroca. Vale-se dos conceitos de belo e sublime em Kant, para desenvolver questões relativas ao desejo e à sublimação tal como se encontram na proposta lacaniana, depreendendo daí conseqüências para a clínica psicanalítica e para a formação dos analistas em seu contexto institucional.

Já o artigo A psicanálise e o tempo de Júlio Eduardo de Castro, trabalha o conceito de sujeito pressupondo não somente sua localização no espaço da cultura, mas também em sua referência ao tempo que se estabelece a partir de um marco inaugural. Entretanto, o inconsciente, ignora a passagem do tempo, e o desejo inconsciente enquanto indestrutível, fica localizado fora do tempo. O autor faz uma análise das referências ao tempo na obra de Freud e Lacan e conclui que, ainda que o inconsciente desconheça o tempo, este não deixa de ecoar nos processos da recordação encobridora, da repetição, da fixação, da regressão, do retorno do recalcado, etc. Manejar o tempo em sua relação com a transferência é um trabalho privilegiado pela perspectiva lacaniana que indo além de uma lógica cronométrica,  fundamenta o corte da sessão na emergência de um tempo lógico. Por esse viés o autor se remete ao movimento barroco que, na história da arte, impôs um corte, uma ruptura na arte clássica, marcando um tempo que ainda não esgotou seus efeitos sobre o sujeito.

Mônica Martins de Godoy Fonseca na composição de um ensaio intitulado De corpo e alma, faz suas pontuações sobre as características do barroco que estão presentes no pensamento e prática analítica, sublinhando, não um corte, mas uma quebra operada por Lacan através de seu estilo, no modo clássico de escrever de Freud. O psicanalista francês nos convida a perceber que o sujeito possui um funcionamento baseado em sua estrutura de gozo. Assim, a questão do inconsciente aparece enfatizando, não propriamente o pensamento e suas articulações, mas o fato de que a fala implica gozo, e diante dele não se queira mais saber de coisa alguma. Por tocar nessas verdades, Lacan, tal qual o barroco, paga seu preço, um dos quais é a expulsão da tradicional International Psychoanalytic Association.

Ao ensaio de Mônica segue-se o trabalho do poeta Cláudio Daniel Releituras do barroco na modernidade, acompanhado de uma antologia neobarroca com diversos poetas da América Latina, que serão publicados neste e no próximo número de nossa revista. Neste trabalho o autor esclarece-nos a concepção de neobarroco que recortou sobretudo de escritores de língua latina e, o assinala como movimento crítico à grandiloqüência européia. Para sublinhar seu valor, alerta que este “é o espelho alucinado, mutável, ambíguo, do caos labiríntico, insano e cada vez mais perigoso em que estamos inseridos”.

Os poemas, de estética neobarroca, são apresentados em língua castelhana com suas respectivas traduções e são seguidos de uma breve biografia de cada um dos poetas eleitos. Deixamos portanto, nosso leitor, neste ponto, ao sabor dessa Antologia da poesia neobarroca na América Latina, esperando que faça um bom proveito de tudo que aqui encontrarão. 

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Maria da Penha Simões

Alexandre Simões

José Sávio Theodoro de Oliveira

Bárbara Maria Brandão Guatimosim

Júlio Eduardo de Castro

Mônica Martins de Godoy Fonseca

Cláudio Daniel

Cláudio Daniel e Vinícius Mendes

José Sávio Theodoro de Oliveira
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Bruno Carvalho,
12 de out de 2016 18:35
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