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Revista v. 06, n. 02

No fechamento deste segundo semestre de 2008, em que ressaltamos a incorporação de Psicanálise&Barroco em Revista na base de dados internacional CLASE, temos o prazer de oferecer aos nossos leitores o lançamento do número 2 do sexto volume de nosso periódico.

Como é nossa orientação, continuamos neste número, contemplando artigos que tratam da psicanálise, privilegiando, sobretudo suas articulações com a literatura, a arte e a cultura, amplo senso. O leitor poderá observar que a interface com a literatura encontra-se especialmente contemplada, fazendo-se presente na maioria dos artigos selecionados.

Embora não tenhamos uma estrutura que nos permita acolher para publicação o recebimento de muitos artigos estrangeiros, dada a dificuldade imposta pela tradução, neste número não pudemos resistir ao belíssimo trabalho que nos foi remetido pela psicanalista italiana Mariapia Bobbioni, intitulado O corpo frio da função: Cenários do Barroco. Nele, a partir de um caso clínico no qual a analista observa um mecanismo pelo qual uma moça defende-se renunciando à sua subjetividade para ser uma simples função automática, uma reflexão é tecida acerca da pulsão de morte e do gozo. Comentários do filme Maria Antonieta são agregados para ilustrar a condição na qual tornar-se rainha implica uma renuncia à condição de sujeito para fazer-se obra de arte oferecida ao olhar do outro, aproveitando uma chance onerosa de idealização de si, revelando uma modalidade de gozo sacrificial. No gozo, suprime-se o sentido. O sujeito se esvai. Por isso mesmo o gozo tem sua função e associa-se à pulsão de morte. Partindo dessa função do gozo presente no pensar-se como objeto de sacrifício a autora investiga a relação função/sacrifício tal como esta se inscreve em algumas figuras do feminino representativas de posições humanas, de maneira a reportar-se à idade barroca das místicas e das feiticeiras. O corpo, a transformação e o monstruoso estão em jogo o que a faz lembrar que o termo feminino é proveniente de feminus, ou seja, o que tem menos fé, donde algumas consequências são depreendidas e valem ser conferidas.

O artigo seguinte traz também uma contribuição na interdisciplinaridade com a literatura. O cuidadoso trabalho da psicanalista Vera Pollo Vozes de Família, focalizará o texto autobiográfico do consagrado autor japonês Mishima, na tentativa de lançar alguma luz sobre as razões que o levaram a cometer o suicídio ritual. A importância das vozes de família na emergência do sujeito do inconsciente e a função que o texto literário pode assumir na dinâmica da pulsão e do desejo em um sujeito,serão analisadas valendo-se de alguns pontos da teoria psicanalítica, onde será privilegiado o estudo do supereu, que enquanto ‘agente judiciário’, assume uma posição intermediária entre as tendências pulsionais e o mundo externo, unindo influências do presente e do passado em diversos imbricamentos. Por essa via, o texto também traz uma interessante contribuição ao estudo do supereu.

Também seguindo o veio da literatura, o próximo trabalho intitula-se A Masmorra de Sade: um ensaio sobre a perversão, de Natália Ferreira Damião. Ela comenta algumas questões relativas à resistência dos analistas no acolhimento de perversos na clínica e dos perversos em se revelarem em suas práticas secretas. Utiliza em seu ensaio a figura paradigmática do Marquês de Sade para focalizar a dinâmica perversa e sua “técnica orientada para o gozo enquanto não sublimado”.

O artigo seguinte aborda uma outra figura paradigmática a partir de seus escritos. Trata-se do texto Salvador Dalí – estrutura e verdade no Mito trágico do Ângelus de Milet,de Vanisa Maria da Gama Moret Santos. Nele, a autora referindo-se ao livro de Dali O mito trágico do Ângelus de Milet, no qual este explica seu método paranóico crítico, tomando em conta uma íntima relação entre sexo e morte verificada a partir de sua análise do quadro O Ângelus de Milet, vem ressaltar a percepção aguçada que veio inclusive a ser confirmada por especialistas, que revela que neste quadro, o cesto de batatas dos camponeses encobre outra cena, a do filho morto. Também Dali veio a ser gerado diante da dor de seus pais pela perda de um filho, o qual certamente ele veio substituir, dado que ganhou o mesmo nome que este.Em sua análise a autora sinaliza que O Ângelus de Gala(1935), indica o lugar que esta mulher assumiu para ele, ao tamponar o vazio da morte e redimensionar seu destino.

A interface literatura e psicanálise volta a comparecer no artigo de Geraldo Martins,Dom Casmurro e Hamlet, no qual o psicanalista aponta esses “romances-luto”, para mostrar o efeito da perda sobre a lida do personagem com o desejo. Tanto a morte de Capitu em Dom Casmurro, quanto a de Ofélia em Hamlet, trazem como efeito uma reintegração do desejo,antes barrado como consequência da depreciação amorosa provocada pelo ciúme. Este quadro, característico da temática do desejo obsessivo, figura de forma clássica a impossibilidade de acesso ao objeto amoroso que se formula como defesa nessa estrutura. Odesejo é reintegrado, porém a custa da constituição de uma impossibilidade. A desidealização dessas mulheres, Capitu e Ofélia, que servia à sustentação narcísica tanto de dom Casmurro quanto de Hamlet, os deixará expostos a um quadro melancólico, prenhe de dúvidas e de atos procrastinados, pautados pelo não-saber o que concerne o desejo do Outro. Como bem sabemos, não só a partir da formulação lacaniana, mas a partir do que nos revela a literatura e a vida, o desejo do Outro é o pivô em torno do qual o desejo do sujeito, ou desses personagens é tecido. O olhar psicanalítico vem focalizar esse recorte.

Chegamos agora ao primoroso artigo Estrutura, Memória e a Emergência da Lei no Seminário sobre “A Carta Roubada” de Luís Alfredo Vidal de Carvalho e também de Ricardo Silva Kubrusly. Os autores trazem contribuições preciosas do formalismo lógico matemático para o entendimento de questões apresentadas por Lacan no Seminário citado de modo por demais sintético, e adicionam ainda elementos da moderna Teoria da Complexidade e do fenômeno da auto-organização para atualização das idéias de Lacan sobre a formação e estrutura do simbólico.

Como vocês devem saber esse texto A carta roubada de Edgar Allan Poe é comentado por Lacan para, dentre outras coisas, ressaltar a questão da emergência da lei a partir do acaso.Os autores começam por ressaltar a semelhança entre o real lacaniano com o jogo do par ou ímpar,ou qualquer jogo de azar, regido pelo acaso e portanto pela imprevisibilidade dos resultados. No entanto, mostram como mesmo diante dessa imprevisibilidade Lacan revela como é possível encontrar alguma margem de determinismo, ou melhor, alguma estrutura,limite ou contorno, do qual emergem certas leis, ou princípios que fazem a base na qual o simbólico se constrói distanciando- se do real, mas também aproximando-se dele, na medida em que o contorna de alguma forma. Acrescentam ainda que, se é verdade que o simbólico estrutura suas leis baseado nas ocorrências do real, é preciso que se observe que uma vez que o simbólico ganhe autonomia frente ao real, outras leis são geradas a partir do funcionamento do próprio simbólico, interferindo com as leis emergentes do real.

De modo extremamente didático os autores apresentam passo-a-passo estruturas complexas que visam trazer como ganho a reconstrução do raciocínio de Lacan elucidando suas propostas, sobretudo frente à questão da formação do registro simbólico no psiquismo humano. Retornam ao texto freudiano do “Projeto de Psicologia para Neurólogos”,incorporam elementos da Teoria da Complexidade de modo a recolocarem de um modo bastante interessante a relação entre a memória e a lei. Vale a pena essa incursão por esses domínios, no mínimo para melhor valorarmos os achados psicanalíticos.

Finalizamos esta apresentação com a publicação que se iniciou no numero anterior: Breviário da Poesia Neobarroca na América Latina. Neste número foram privilegiados os poetas brasileiros que se aproximam desta vertente estética também apreciada por escritores latinoamericanos, em especial os de língua espanhola, como pudemos ver na primeira parte da antologia. O neobarroco – ou neobarroso na apropriação de Nestor Perlongher para a poesia produzida em boa parte da América Latina no tempo que o poeta vivia entre nós – só foi possível a partir da insistente valorização da arte e cultura barroca do período setecentista, retomada no século dezenove pelo crítico de arte Wolfflin (1864-1945) e, no século vinte,alvo de pesquisas de importantes autores como Umberto Eco, Affonso Ávila, Octávio Paz, Eugenio D´Ors, Germain Bazin, Irlemar Chiampi, só para citar alguns nomes. O que sabemos é que Lacan, n´O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973), também irá se aproximar do barroco, articulá-lo à transmissão da psicanálise, à sua própria ética. Ou seja, há muito mais na arte e no período histórico em que se dá a emergência do barroco do que se imaginava subjulgando-o por muito tempo como arte inferior, do grotesco e repulsivo. O redescobrimento do barroco foi, durante todo o século vinte, uma resposta à modernidade, da persistência/novidade de suas propostas estéticas, conceituais e seu modus vivendi, alternativa ética às consolidadas e canhestras concepções do belo.

São os poetas Lezama Lima e Haroldo de Campos – anos 50 e 60 - que em suas obras críticas e de poesia cunharam pela primeira vez o termo neobarroco e permitiram assim que sua polissêmica veia se espraiasse até os nossos dias. Em tempos atuais, o principal divulgador do jamais acabado experimento neobarroco é o poeta e crítico Claudio Daniel, que publicou em 2004, Jardim de Camaleões, A Poesia Neobarrcoa na América Latina. O autor colaborou na organização e seleção dos poemas aqui publicados, o que nos dá o privilégio de poder contar com poemas de Horácio Costa, Josely Viana Baptista, além do próprio Cláudio Daniel. Além disso, poetas excelentes como Eduardo Jorge, Adriana Zapparoli, Elson Fróes e Ana Maria Ramiro que, em plena efusão conquistam cada vez mais espaço, seja através da publicação em livros ou pela internet em revistas literárias e blogs. Outro mais conhecido por sua obra em prosa, merecedor dos diversos prêmios e reconhecimento que já tem, e que com certeza mais ele logrará, é o escritor Wilson Bueno, que também nos adianta aqui alguns poemas inéditos. Mas, esta apresentação, que já está alongada, não deve antecipar por demais o estranhamento, curar-nos da surpresa e do etos movente, seja em arte, seja em psicanálise; portanto, ao leitor, já está dada a possibilidade do encontro.

Por Denise Maurano Mello e Vinícius Mendes





Denise Maurano Mello e Vinícius Mendes

Mariapia Bobbioni 

Vera Pollo 

Natália Ferreira Damião

Vanisa Maria da Gama Moret Santos 

Geraldo Martins

Luís Alfredo Vidal e Ricardo Silva Kubruslyi

Cláudio Daniel e Vinícius Mendes
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Bruno Carvalho,
12 de out de 2016 19:45
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