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Revista v. 07, n. 02

Concluindo o sétimo ano de Psicanálise & Barroco em Revista, muitas são as novidades que se prenunciam. A revista, até agora alocada no Núcleo de Subjetividade e Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, encontra-se nos trâmites de vinculação à linha Memória, Subjetividade e Criação do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Uma nova etapa se descortina, sedimentando cada vez mais o compromisso que ao longo desses anos tem orientado nosso trabalho, fundado no desejo de contribuir para a circulação do saber com uma transmissão ética da Psicanálise, promovendo seu diálogo com a Arte, a Cultura, e salientando agora também as questões levantadas pela temática da Memória Social.

Neste décimo quarto número, o leque de assuntos enfocados está bastante diversificado. Temos a honra de abrir com um importante artigo de Alexandre Fernandes Corrêa intitulado O labirinto dos significantes na cultura barroca, no qual a Antropologia dialoga com a Psicanálise, trazendo como efeito uma importante contribuição tanto para a área de Estudos Culturais, quanto para a chamada Psicanálise em extensão. Tal artigo nos é especialmente caro por conta de aproximar-se bastante dos estudos que empreendemos sobre o tema e que motivou, anos atrás, o nome de nossa revista.Nele o autor a partir de um processo de pesquisa sociocultural, toma para si a tarefa sugerida por Lacan  de realização de uma história cultural do significante, no caso, o significante barroco, buscando situar sua função na sociedade contemporânea e, mais precisamente, no imaginário social  latino-americano. Começando por uma investigação etimológica do termo barroco, sempre voltado para a imperfeição, o autor avança para seu sentido estrutural, que vem configurar uma disposição anímica e intelectual que se alastra paradoxalmente na chamada Idade da Razão, ou período das Luzes, salientando ainda, a contingência histórica na qual o Barroco vem colocar-se como paradigma da colonização e da cultura latinoamericana. 

Argumenta que a mestiçagem, a fragmentação, o confronto de heranças culturais, a manipulação de representações, transformou o conflito entre diferentes culturas em convivência possível, produzindo em nós um tipo de identificação transnacional latino-americana na qual vigora um modo especial de laço social. Tal laço prenhe de plasticidade, encontra sua expressão popular barroca desde a decoração dos interiores das igrejas e capelas, como também na música popular, nos movimentos de juventude hip-hop e no rap, na arquitetura popular de bricolages e, ainda, no tom espetacular dos rituais religiosos e na pompa dionisíaca das festividades carnavalescas e juninas, bem como na exacerbação do misticismo e do erotismo. Observa como analisante e pesquisador de Estudos Culturais que aqui, como não vivemos o Renascimento, as forças Iluministas não avançaram muito, possibilitando uma certa permanência histórica de identificações culturais barrocas e a partir disso tenta depreender suas consequências.

Já que começamos no clima das intensidades, passamos imediatamente à apresentação de três artigos que, de diferentes modos, contemplam a temática do amor. 

O apaixonante artigo de Jean Michel Vives nos leva a uma experiência fantástica pelo universo da música e mais precisamente de um tipo extraordinário de voz, bastante frequente no ambito do Bel Canto até o início do século XX. A referência aqui é ao castrato que tendo surgido, com uma voz, sem qualquer termo de comparação com a voz de homem, mulher ou criança, foi considerada, por muito tempo, com a voz do anjo e por isso, estaria a serviço de Deus. A produção dos castratos deveu-se à interdição da Igreja às mulheres nos coros e à exigência de uma voz que extraordinária apropriada aos cânticos e louvores divinos. 

A  voz do castrato era objeto de arrebatamento e também de paixões estonteantes naqueles que eram atravessados pelas vibrações produzidas por esse ser diferente capaz de levar ouvintes a estados de êxtase. Das capelas o castrato passou a frequentar o mundo da ópera ocupando o espaço que nos séculos XIX e XX era destinados às primas donnas, que eram as vozes de mulheres sopranos. Depois de ter sido totalmente banido do cenário da ópera o castrato retornou ao domínio relegioso, confinando nesse lugar até seu desaparecimento. Após ter sido objeto de várias críticas daqueles que levantavam sérias restrições a este tipo de ser – o homem castrado –,  houve uma radical mudança na interpretação que foi dada ao castrato : de voz divina à voz diabólica; de ser que causa curiosidade a ser obsceno. São por essas e outras tantas nuanças que o autor faz um excente percuso, situando-se à luz do conceito de pulsão invocante, da história dos castratos, destacando a voz como condição de gozo e pensando-a no campo do objeto a. Há também uma interessante passagem, retratada pelo autor, de uma possível cura da depressão de um rei da Espanha pela voz de um castrato. Eis um ponto de reflexão sobre esse ser extraordinário da música com qual o autor se vale para refletir sobre questões da clínica que têm como eixo a voz e a vocalização.     

Parodiando a campo da experiência musical, Francisco Ramos de Farias nos convida a refletir sobre questões acerca da transferência pelo viés de Elegia ao amor. Para tanto situa a experiência germinal da psicanálise relativa ao encontro amoroso de um homem Joseph Breuer com uma mulher Anna O. Considerando as reviravoltas decorrente da experiência amorosa, o autor reune filigranas de textos acerca do amor, viajando pela literatura, música, artes e enfim os possíveis recônditos que desemboquem no amor. Para o colóquio sobre o amor, o autor convoca as mulheres que se apresentam, princpalmente, falando-nos de suas queixas, quer dizer, dos males de amor. Vale-se do recurso dos escritos sobre o amor, das cartas, e de tudo enfim que os amantes utilizam para tentarem dizer o impossível acerca do amor. Nesse ponto coloca em cena R. Barthes que, como quem coloca um ponto de basta, nos informa que do amor só podemos falar de fragmentos. Situando a experiência com o inconsciente deixa-nos a albertura para não esquecermos da recomendação freudiana de que a análise é uma experiência modulada pelo amor e esse é o veio que leva à produção de saber, visto que é o saber que desperta o amor. Por isso, o analista é amado pelo analisante que parte de uma suposição de saber. O amor pensado como mola da vida também comparece no dispositivo analítico, sendo ao mesmo tempo a propulsão ao andamento de uma análise e também um grande obstáculo. 

Ainda sobre essa mesma temática, Renata Damiano Riguini trabalha com as noções de desejo e amor em Lacan a partir do livro de André Gide A porta estreita, utilizada também como título de seu artigo. Não se trata nem de um estudo literário, ou biográfico, mas de fazer uma leitura lacaniana do amor gideano. A autora salienta que é o amor que instaura a falta abrindo canais para o trilhamento do desejo. A tríade amor, desejo e gozo é abordada quando, fazendo menção ao amor cortês a autora aponta a suspensão do gozo como via pela qual o desejo, mantendo-se irrealizado, alimenta-se da falta sustentada pelo amor impossível, no qual toda a satisfação é obtida fora da cópula. Gide jogando tanto com a face sublime, quanto com a face abjeta do amor revela a função criadora, da falta, do furo, da fenda, que não deixa de ser sempre um lugar de passagem, ainda que essa passagem seja sempre estreita, de modo a que se possa espreitar o impossível que está em jogo no amor. 

A vertente da clínica psicanalítica é prestigiada nesse número com dois artigos. Um deles é o trabalho O desejo do analista e a clínica psicanalítica com crianças, o qual Teresinha Costa situou de modo bastante pontual e interessante essa questão do que foi conceituado por Lacan como desejo do analista perguntando-se acerca de sua especificidade na Psicanálise com criança. Este conceito visa diferenciar o desejo que opera na condução de uma análise, daquele da pessoa do analista. Assim, se a ética tradicional visa o Bem, a ética da Psicanálise, ou seja o princípio que opera na condução da intervenção do analista, questiona esses valores universais que se tecem em torno da idéia do Bem, e convoca uma orientação que tome em conta o desejo singular do sujeito na sua relação com as suas ações. Só que para que o desejo do sujeito ganhe vias de expressão é preciso que o analista tomado pela função que ele tem no tratamento, se abstenha do sujeito que ele é, com todas as suas pessoalidades, exatamente para que a investigação psicanalítica possa se fazer valer, diferenciando-se assim de trabalhos sugestivos, presentes nas relações intersubjetivas. A autora ressalta que no caso da criança, que é sempre conduzida a uma análise por um outro – a mãe, o pai, ou um cuidante – o encontro com um analista faz-se uma experiência inusitada na medida em que ela depara-se  com alguém que não lhe deseja nada especial, apenas que persiga suas próprias questões a fim de desvelar o desejo que a move e os impasses frente ao mesmo. Certamente o lugar que ela ocupa no desejo de seus pais vai contar em muito na sua constituição de sujeito desejante, o que fará com que o analista tenha que tomar em consideração, para a sustentação do trabalho com a criança, a relação estabelecida com os pais da mesma. Assim o desejo do analista terá que comparecer tanto na transferência com a criança, quanto com os pais sempre buscando situar a emergência do sujeito desejante.  

Enveredando pelo âmbito da clínica, seguimos com o artigo de Marcos Vínicius Rezende Fagundes Netto que nos reporta a um tipo singular de experiência com o inconsciente quando nos situa o ofício do analista em Unidade de Tratamento Intensivo. Parte de um questionamento instigador quando faz alusão a um retorno ao pensamento freudiano refletindo sobre a possibilidade de pensar a prática clínica, no contexto transferencial, no espaço de uma instituição hospitalar significativamente marcado pela presença da morte. O autor assinala que, embora na Unidade de Tratamento Intensivo paire a sombra ameaçadora da morte, este é também o lugar onde mais se luta pela vida. Assim fica demonstrado e encontro cabal entre a luta pela vida que se contrapõe às indicações de morte, e a esse respeito o autor assinala que se, por um lado, urge que se faça algo em relação às condições orgânicas do sujeito, por outro, há a urgência psíquica que conclama a realização do trabalho do analista. Há, no texto, uma advertência ética quanto a esse trabalho uma vez que é sinalizado que o analista somente deve intervir em condições de fazer ressonâncias ao texto freudiano como aquele que propiciou a criação de novas formas discursivas no campo clínico. Eis o encaminhamento que o autor nos oferece, de forma brilhante, para refletirmos sobre o trabalho analítico no âmbito das instituições. 

Ainda no campo das questões que concernem ao analista, o artigo de Orlando Soeiro Cruxên nos apresenta um interessante diálogo sobre a espinhosa questão da formação do analista. Inicia uma discussão acerca da temática, reavivando algumas indicações freudianas para situar o empreendimento revolucionário de Lacan sobre essa questão. Argumenta o autor que apesar de todos os esforços dos estudiosos da psicanálise, durante o século de sua fundação, a formação do analista é ainda um assunto inacabado, embora já se tenha avançado muito. Basta para isso que lembremos da distinção operada por Lacan entre formação analítica e formação universitária, que o autor toma como eixo para problematizar a questão quando alude ao campo da psicanálise em “intensão” e à psicanálise em extensão. O autor convida-nos a refletir a formação do analista considerando a questão do passe, tomada como condição primordial a essa formação. Como uma excelente ilustração da questão, o autor apóia-se na experiência de supervisor de uma clínica escola para traçar o balizamento entre a formação nas instituições psicanalíticas e indagar o que acontece com o saber psicanalítico que circula fora desse âmbito.  

Seguido essa linha de raciocínio encontramos ainda o artigo Experiências Discursivas na Universidade de Vitor Ferrari que, com muita fineza, abre um pórtico para refletir sobre as operações que giram em torno do saber no âmbito da academia. É nesse espaço que analisa com a questão do saber na universidade, oferecendo-nos um rico material quando faz a comparação do saber na universidade medieval e na moderna. 

Toda a argumentação apresentada pelo autor é feita a partir do instrumental teórico da psicanálise focalizando a teoria dos quatro discursos elaborada por Lacan. Com esse é o instrumento de leitura, o autor demonstra como ocorre a operacionalização do saber na universidade moderna, dando destaque à questão da transmissão no contexto das experiências discursivas. Sua análise pauta-se na célebre distinção entre saber e verdade e esse é um dos principais aspectos trabalhados, de forma apropriada, no decorrer das observações empreendidas pelo autor. Há, enfim, uma posição de confronto entre o saber referido à transmissão no discurso do analista e a transmissão de saber no discurso universitário. 

Chegamos então à região dos Ensaios. Selecionamos para esse número o de Carlos Eduardo Leal Soares e o de Rita de Cássia Almeida. No primeiro, intitulado O escritor, sua memória e seu ofício, o autor ressalta a aproximação entre a memória vivida e a memória inventada e traça um curioso paralelo entre o escritor e o analista, argumentando que um livro refere-se à memória de seu autor, mas também provoca a memória do leitor, o que traz efeitos inusitados no psiquismo deste último. Nessa abordagem da memória Leal nos relembra o maravilhoso poema de Manoel de Barros “repetir, repetir, repetir, até fazer diferente”.

Já o ensaio de Almeida, O SUS e o desafio imposto pelas drogas, possivelmente motivado por uma série de reportagens exibidas recentemente no Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, no qual ventilava-se a questão  da internação involuntária, assevera que existem alguns avanços conquistados no âmbito das políticas de saúde mental que não podem retroceder, sob nenhuma justificativa, nem mesmo pelo apelo emocionado de pais e mães. Aquilo que foi superado pela sua ineficácia e ineficiência, pela iatrogenia gerada, pela desumanidade e desrespeito a direitos mínimos de dignidade e cidadania e pelo reforçamento de estigmas e preconceitos, não pode ser novamente pensado como uma estratégia possível e plausível.

Assim abrimos mais este número que temos a honra de lhes oferecer tanto para seu deleite, quanto para seus estudos.

Por Denise Maurano Mello




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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:21
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Bruno Carvalho,
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