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Revista v. 08, n. 01

Temos o prazer de entregar aos nossos leitores o primeiro número do oitavo volume de Psicanálise & Barroco em revista.

A associação sempre presente entre a psicanálise, a literatura, e a filosofia, comparecem fazendo a tônica desse novo número que ora lhes disponilizamos. Nesses oito anos de existência, nosso perfil se delineou não apenas através de nosso projeto inicial, mas também a partir dos caminhos que a revista trilhou via o material que lhe foi endereçado e selecionado ao longo desse tempo e via a incorporação de novos pareceristas. É no jogo desses múltiplos olhares adotantes e adotados que tecemos nossas conexões as quais pretendemos que se ampliem agora, também no acolhimento de artigos que primem pelas temáticas da memória, da subjetividade e da criação de modo a intensificarmos as contribuições nesses âmbitos.

Começamos por lhes convidar a ler o interessante trabalho de Carolina Detoni Marques Vieira intitulado Dostoiévski e a questão do duplo, no qual a autora demonstrando um considerável conhecimento do autor russo, focaliza sua ousadia em adentrar os abismos da alma analisando especialmente seu segundo trabalho – O duplo, de 1846 –, de modo a remetê-lo ao texto freudiano O estranho, de 1919. A questão do duplo refere-se à divisão que nos habita, humanos que somos, e que por isso mesmo, pode encontrar-se nos personagens que criamos, nas idéias que temos e, até mesmo, numa sociedade. Isso Dostoiévski soube explorar com mestria. Através da composição da figura do senhor Goliádkin, que chegou a causar desconforto para a intelectualidade da época, o romancista encontra o protótipo de seu personagem-tipo e trinta anos depois do lançamento da obra, reconhece nela uma de suas mais relevantes contribuições para a literatura.

Detoni salienta que a estranheza referente à divisão vivida pelo personagem e que encontra larga expressão também em outras obras tanto do autor russo como de outros é tematizada por Freud que, pensando o estranho, “unheimlich” em alemão, como o familiar “heimlich” que deveria ter permanecido oculto e que veio à luz, refere-se a uma espécie de cisão constitutiva e trágica da existência humana e de seus efeitos na esfera social. Por esse subterfúgio revela-se a tensão entre o almejado e o possível, entre a intenção subjetiva e a coerção social. Assim, a dimensão abissal da perspectiva psicológica da dramaticidade dostoiévskiana e a crítica social carreada por ela são extremamente valorizadas pela análise perspicaz de nossa autora através de um texto claro e fluente que certamente vai interessá-los.

Focalizaremos agora a referência a um outro monstro da literatura apresentando aos nossos leitores A travessia pelo sertão como percurso analítico em Grande Sertão: veredas no qual Irineide Santarém André nos faz revisitar nada mais, nada menos que Guimarães Rosa. Seu artigo, que é um desdobramento de sua dissertação de mestrado, analisa o romance referido no título como se o narrador-personagem, Riobaldo, fizesse uma análise psicanalítica com seu interlocutor, que embora presente apenas na sua narrativa, acaba por ser o próprio leitor. Trata-se de uma travessia pelo sertão que fica aqui escandida para uma outra travessia, a do sertão de si mesmo em busca de sua verdade. Irineide observa que essa narrativa é em primeira pessoa e goza do rebuscamento de um labirinto barroco, no qual o leitor pega ou não o fio condutor na direção da saida. Essa travessia é ocasionada pela ânsia do não vivenciamento carnal do amor de Riobaldo por Diadorim, que ele pensava ser um homem e que se desvela como mulher, apenas quando já está morta.

Outro fator destacado é que na narrativa do personagem aparece a dor pela questão de como ele não viu que Diadorim tinha um corpo de mulher; porque manteve esse amor irrealizado? E ela segue sua análise valendo-se de alguns elementos da teoria de Freud e Lacan, para falar do impasse amoroso não como contingente à história de Riobaldo e Diadorim, mas inerente ao amor.

Já que estamos na seara dos impasses inerentes ao amor, passaremos então ao artigo A separação amorosa: uma abordagem psicanalítica de Elen de Paula Ferreira. Nele a autora que, curiosamente, atua em programas de mediação de conflitos em Minas Gerais, intervenção que tenta evitar o enfrentamento jurídico de casais, trabalha em sua pesquisa o tema do sofrimento decorrente da separação amorosa, focalizando os encaminhamentos narcísicos presentes nas escolhas amorosas do sujeito e suas consequências frente à perda do objeto eleito. Para tal, lança mão de vários textos freudianos que abordam o tema do narcisismo, da idealização, do apaixomento e do luto, para finalizar seu trabalho analisando as consequências para o ego, da separação amorosa, valendo-se prioritariamente de contribuições de dois outros psicanalistas. São eles Juan-David Nasio e Igor Caruso.

O próximo artigo selecionado A dialética do senhor e do escravo em Hegel: uma breve análise, de Marcio Gimenes de Paula, tomando em conta os comentários que Henrique Cláudio de Lima Vaz faz da obra, tem o mérito de introduzir os leitores na tão citada metáfora do senhor e do escravo, presente na Fenomenologia do espírito de Hegel. Como sabemos na perspectiva do psicanalista francês Jacques Lacan, a proposta hegeliana possui uma importância capital para o entendimento do conceito de Outro, com suas consequências sobre teorização lacaniana da constituição do sujeito desejante em sua vinculação com o social.

Em sua análise o autor destaca três significações fundamentais para a mencionada obra hegeliana. Uma filosófica, com o questionamento do que vem a ser a consciência de si mesma numa perspectiva em direção à ciência; a outra cultural, dado que a consciência não é extemporânea nem descontextualizada; e, a terceira histórica, na medida em que, a consciência caminha para uma perspectiva científica na história. A partir disso o problema que se coloca refere-se ao impasse entre o objetivo e o subjetivo, ou seja, como é possivel submeter a verdade do objeto à verdade do sujeito, para que se possa chegar  a um saber absoluto? Abordar tais questões é de crucial importância para que se possa melhor delinear em sua diferença a questão da relação ao saber na psicanálise na qual, mais de acordo com Kant, não se nega o limite do que se pode saber.

Na sequência, sublinhando esse limite na relação ao saber, o texto de Eliana Luiza Santos Barros Os enigmas do dizer poético de Florbela Espanca, aponta para uma dimensão do real que enquanto incognoscivel é tangido apenas pelo exercício metafórico dos poetas, que, como bem indicaram Freud e Lacan, antecipam revelações que se encontram muito distantes do homem da ciência, razão pela qual a literatura é tão cara à psicanálise.

A autora focaliza a obra de Florbela Espanca que dando testemunhos do inconsciente, bem serve para facilitar o acesso à elementos da teoria psicanalitica circunscritos em torno da ideia de conflito pulsional, tomando em consideração as porções destrutivas e construtivas amalgamadas na dinâmica do inconsciente e bem evidenciadas na íntima relação entre o amor e a morte.

Mantendo os laços com a contribuição literária chegamos a uma discussão sobre o feminino no texto de Yvisson Gomes dos Santos que faz uma articulação precisa entre a concepção extraída do ensino lacaniano e a mitologia, situando o desejo e o corpo no âmbito do psiquismo da mulher. A escrita toma como eixo matricial de problematização o enigma da mulher no que concerne, especialmente, à sexualidade, indicando que a inscrição inconsciente dos aspectos sexuais somente pode ser entendida na lógica do significante não-toda, para a mulher, uma vez que alguma coisa passa a fazer parte do registro simbólico enquanto que outra fica fora da linguagem.

A compreensão do mistério que o feminino encerra é feita pelo autor em uma alusão aos mitos, como, por exemplo, a abordagem da barreira da castração na mulher que é explicada pelas referências ao mito de Górgona. Daí situa, no contexto da questão do feminino, duas possibilidades do ser mãe: a figura da mãe que devora e a que faz de seu filho a extensão fálica do amor. Enfim, conclui que a questão do mistério do feminino é tangenciado, na psicanálise, pela compreensão de que a mulher é um ser em uma caminhada que consiste em vir-a-ser, quer dizer, endereçado a tornar-se mulher.

Enveredando pelas trilhas dessa questão do ser mulher seguimos com a contribuição sobre a histeria de Lia Maria Frota Amora Silva Bitar e Orlando Soeiro Crüxen a qual os autores se propõem a analisar a escolha de objeto própria da histeria. Eles cotejam ideias em Freud e em Lacan, passeando, com propriedade pelo universo da clínica, para tecer considerações acerca da relação de escolha de objeto a partir de fundamentos operadores da metapsicologia freudiana.

O trabalho apresenta um aspecto inovador quando situa a escolha de objeto no âmbito de um re-encontro, não no sentido do trabalho clínico dever ser circunscrito à possibilidade de encontro de algo novo, mas tão somente de o analista poder acompanhar a maneira como o paciente se posiciona ante aquilo que surge no material fruto da produção discursiva. Disso advém a proposta apresentada pelos autores como um ponto de reflexão.

Quer dizer, a investigação no âmbito da psicanálise em que tratamento e pesquisa coincidem e a busca por respostas deve ter como matriz as lacunas observadas pelo analista, tanto no cotidiano de seu exercício com a associação livre, quanto nas leituras realizadas naqueles teoricos que sao tomados como interlocutores com os quais mantém uma transferência de trabalho.

Ainda trilhando o campo da clínica, focalizaremos o artigo de Denise de Fátima Pinto Guedes que se dedica ao estudo da inovação extraída do ensino lacaniano acerca do objeto “a”. A referência para a elaboração da autora é o pensamento freudiano que é tomado como linha diretora no rastreamento através do Seminário A Angústia de Jacques Lacan. O intuito do percurso e da argumentação é mostrar como o conceito de objeto “a” assume, no ensino de Lacan, a condição de causa da angústia e causa de desejo. Por fim a autora aponta o modo pelo qual o conceito de objeto “a” vem a ser, sem dúvida um marco revolucionário no contexto do saber psicanalítico, especialmente, na psicanálise de orientação lacaniana, enquanto ferramenta fundamental para a condução do exercício clínico e também como eixo matricial na explicação da constituição do sujeito e da angústia entre outros temas.

Após termos a interessante e bem construída explanação acerca do objeto a nos reportamos, mais uma vez, aos recônditos da literatura para situar o artigo Frankenstein na UTI neonatal: o conflito entre o filho real e o filho imaginário de Marcus Vinícius Rezende Fagundes Netto e Leandra Silva Duarte que, enveredando pelas criações artísticas elegem a literatura como o campo de diálogo com a psicanálise, admitindo que tanto o escritor como o psicanalista se valem da linguagem e da interpretação.

Uma vez estabelecido esse paralelo, os autores lançam mão do romance Frankenstein de Mary Shelley, para analisar detalhes importantes e apontar como a ambivalência de sentimentos, própria da relação mãe-filho, considerando o contexto de Unidade de Tratamento Intensivo neonatal, engendra-se a partir do confronto entre o filho imaginário e o filho real que se coloca para a mãe como um estranho. O paralelo traçado entre a estória do romance e a relação mãe-filho tem como fundamento o confronto entre o filho real e o filho imaginário observado em unidade neonatal e o personagem Frankenstein do referido romance. Nas duas situações tanto a amor como o ódio são objetos de estudo que permeiam os dois contextos.

A clareza da escrita e o estilo dos autores possibilitam depreender a maneira como aconteceu a análise do romance, não somente em função da riqueza de detalhes com que o personagem se reveste, mas sobretudo pela gama de sentimentos e desejos evidenciados. No entanto o olhar que circunscreve a dimensão da angústia não passa despercebido, o que então é objeto para a análise da situação de uma mãe frente a seu filho que, após o nascimento, é levado para a UTI neonatal. É nesse sentido que o texto trata, com fineza, um dos pilares da clínica: a importância da escuta e, consequentemente, do lugar para a palavra. O argumento apresentado é o de que por intermédio da palavra a mãe de uma criança, nessas circunstâncias, poderá encontrar meios para elaborar o luto relativo ao filho imaginário. Com isso abre-se a possibilidade para que o seu filho que se encontra na UTI possa finalmente “nascer”.

A condução do artigo é assaz provocativa, pois apresenta a advertência, bastante conhecida no âmbito da prática clínica, de que o psicanalista deve, mesmo nessas condições, guiar sua prática por um fundamento ético, uma vez que é a ética da verdade do sujeito. Assim, o analista conseguirá propiciar condições no sentido de oferecer à mãe possibilidades de elaborar o luto do filho imaginário. Para isso, o analista deve dispor de sua escuta e possibilitar a palavra. É com esse dispositivo que se abre a possibilidade de que o filho imaginário deixe de figurar em primeiro plano e assim o filho real poderá então advir, mas é preciso que seja dado um destino à angustia experimentada pela mãe ante a estranheza da situação.

Na sequência dos textos deste número deparamo-nos com três excelentes ensaios. O primeiro trata da relação entre a vestimenta e o corpo da Fada que Mariapia Bobbioni nos brinda com uma viagem pelo mundo das fábulas, analisando o contexto a e significação das fadas Melusine e Morgana, mostrando a singularidade de cada uma delas em termos da relação que estabelecem com suas vestes. A autora faz um belo passeio por esse universo fazendo ricas aproximações com a leitura que extrai acerca das fábulas e o campo da clínica psicanalítica.

Um aspecto importante a ser assinalado na diferenciação entre as duas fadas consiste na maneira como elas se valem das vestes, seja para encantamento ou para disfarce, ponto que leva a autora a aproximar-se do universo da mulher, entendida como o ser mais disponível às mutações, no âmbito do saber psicanalítico. É por esse viés que uma reflexão é proposta entre a situação de transformação das fadas e toda a gama de metamorfoses próprias do ser mulher. Por esta razão a conclusão que extraímos do ensaio é a de que o significante fada concerne ao feminino.

No outro ensaio intitulado O último poema de Abel, Rita de Cássia de Araújo Almeida nos apresenta em sua escrita o traçado de um percurso que teve com um paciente em, curiosamente, uma experiência de nove meses, ao fim da qual houve o suicídio. Acerca do ato final de vida desse paciente poeta, sua analista se dispõe a nos oferecer, em filigranas, uma contribuição do que significa o merecer viver para quem tem a morte como um castigo e o merecer morrer para aqueles que vêem na morte uma alternativa de escolha possível ante a dor insuportável causada pelo sofrimento que assola a existência.

A autora foge de todos os clichês banais que circulam em termos de interpretações sobre o suicídio para nos incitar a refletir sobre outras possibilidades. Assim, no exercício de uma reflexão, sem tomar partido de uma ou de outra explicação, poderíamos concluir pelas pegadas deixadas pelo paciente e pelo testemunho da escrita de sua analista que esse sujeito abriu mão da vida em uma tentativa apaixonada para tentar existir. Desse modo, seguimos a linha de pensamento do ensaio quando em suas linhas finais apresenta-nos o desfecho da escrita indicando-nos que esse sujeito não merecia viver, uma vez que era a morte aquilo que afigurava em seu horizonte como único e maior dos merecimentos.

A condição de quem não merece viver é que nos enseja uma possibilidade de compreensão acerca desse suicídio: nem ato heróico, nem fascínio melancólico pela morte e tampouco covardia. Escrever poemas, tentar suicídio e enfim matar-se: eis a trilha de libertação desse ser que conheceu tão de perto a dor de existir.

Acolhemos ainda em nossa seção de ensaios uma justa homenagem que o poeta Claudio Daniel, presta ao nosso saudoso Wilson Bueno, também poeta, romancista, autor de vasta e rica obra, foi editor do jornal literário Nicolau, em Curitiba, que marcou a história do jornalismo cultural brasileiro e reconhecido internacionalmente por seu romance experimental Mar Paraguayo. Infelizmente trata-se de homenagem póstuma, devido ao seu lamentável assassinato em Curitiba. De seu livro inédito 35 Poemas de Amor, publicamos três peças no número 12 de Psicanálise & Barroco em revista, como integrantes da antologia Breviário de Poesia Neobarroca na América Latina.

Neste número também fomos brindados com a belissima resenha que Ana Vicentini fez da não menos bela obra Amor paixão feminina (Editora Campus/Elsevier) de Malvine Zalcberg. Salientando a sensibilidade, a erudição e a vasta experiência clínica da autora, Vicentini observa que nesse trabalho o enigma da diferença sexual é abordado através de outro enigma: o amor.  Este rebelde, escapando ao nosso controle e ecoando nos divãs psicanaliticos, tem presença marcante, especialmente nas tentativas femininas de lhe dar um contorno, compreendê-lo.

Trazendo elementos tanto da clinica psicanalítica, quanto da mitologia, da literatura, da filmografia e da observação perspicaz do quotidiano, o amor aparece prevalentemente como assunto de mulheres e em seus comentarios Vicentini destaca o quanto a autora da obra explora essa questão até suas últimas consequências com a mestria de quem sabe do que esta falando. E, sublinhando as distintas lógicas que operam no funcionamento de um homem uma mulher, finaliza sua resenha destacando enquanto proposição poética o enfoque do amor como "a arte do encontro como desacordo".

Assim, aderindo a esse enfoque finalizamos este editorial convidando nossos leitores a adentrar “amorosamente” esses varios trabalhos que lhes disponibilizamos e que perpassam alguns campos de saber nas múltiplas conexões acolhidas por nossa revista.

Por Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias





Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias

Carolina Detoni Marques Vieira

Irineide Santarém André Henriques

Elen de Paula Ferreira

Marcio Gimenes de Paula

Eliana Luiza Santos Barros

Yvisson Gomes

Orlando Soeiro Cruxên e Lia Maria Frota Amora S. Bitar

Denise de Fátima Pinto Guedes

Marcus Vinícius Rezende F. Netto e Leandra Silva Duarte

Ensaios

Mariapia Bobbioni

Rita de Cássia de Araújo Almeida

Cláudio Daniel

Resenha

Ana Vicentini de Azevedo
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:33
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:33
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:33
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:33
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Bruno Carvalho,
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:34
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Bruno Carvalho,
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:34
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:34