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Revista v. 08, n. 02

O lançamento do segundo número do oitavo volume de Psicanálise & Barroco em Revista, fecha para nós, o ano de 2010 com a efetivação já anunciada de sua migração para o Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – PPGMS/UNIRIO, como periódico da linha Memória, Subjetividade e Criação. Bem sabemos o quanto é difícil sustentarmos uma revista, primando pela qualidade, por tantos anos, afinal, entramos no nosso nono ano de publicação. Queremos agradecer o estímulo e a contribuição que nossos autores e leitores vem nos dando ao longo desse tempo. Aproveitamos também, para anunciar que começamos a trabalhar na inclusão de nosso periódico na plataforma SEER/OJS, que é uma maneira de publicar periódicos científicos na internet, apoiada pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.  Esperamos que até o final do próximo ano já estejamos funcionando neste novo modo.

Prosseguimos com nosso desejo de contribuir com a circulação do saber, valorizando a interlocução da Psicanálise com a Arte, a Cultura, a Filosofia, a Comunicação, a Memória Social e todas as áreas com as quais possamos dialogar de modo frutífero e consequente.  Assim, abrimos o presente número com um artigo que nos foi enviado por Marcelo Santos no qual trata a questão do pertencimento à masculinidade ou à feminilidade na perspectiva freudiana, fazendo uma exploração semiótica, tomando por referência a noção peirceana de hábito.  De um modo bastante interessante, em Semiótica do feminino freudiano: uma mudança de hábito, o autor privilegia nossa condição de réfens da linguagem e problematiza especialmente a posição feminina na relação com o período designado por Freud como primado do falo.

Com o extenso título Entre brinquedos e ruinas: o sentido em jogo ou o jogo do sentido em “Fim de Partida” de Samuel Beckett, Cassiana Lima Cardoso nos traz uma interessante contribuição da área de literatura comparada, na qual analisa a referida obra de Becket à luz de observações de Freud, Bachelard, Didi-Huberman e Winnicott, que evidenciam que as personagens do escritor irlandês encontram-se bem longe da estagnação que lhes é imputada. Salienta que a dinâmica da repetição na encenação aponta para um espaço de criação. Problematiza ainda o intervalo presente entre a memória e a experiência salientando as consequências para a encenação, da falibilidade da linguagem que se mostra latente num século povoado por guerras, onde resta brincar, ainda que com crueldade, tal como fazem as crianças que jogam para produzirem um estranho entendimento da finitude.

Não muito longe do teatro de Beckett, o artigo Francis Bacon: destituição subjetiva e formalização da obra de arte, da psicanalista Sônia Borges nos apresenta a filiação do artista tanto à tragédia grega, quanto à tragicidade moderna, valendo-se da descrição que Bacon faz dos processos de subjetivação que suportam seu ato criativo. Com o texto a autora busca trazer elementos para a difícil elucidação da questão da destituição subjetiva proposta por Lacan como inerente ao ato analítico, propondo uma aproximação entre este e o ato criativo, tal como mencionado por Bacon, o que resulta num texto instigante e efetivamente esclarescedor.

Ainda acerca da articulação entre o fazer criador e a psicanálise, coincidentemente numa perspectiva bem próxima do artigo anterior, o texto de Camilla Biazus e de Graziela Cezne Expressões do Inacabado: encontros entre a psicanálise e arte, também traz a peculiaridade de tomar como ponto de partida o dizer dos artistas, de pensadores e filósofos sobre seu processo de criação. A partir dessa visada as autoras indagam sobre o que há de psicanalítico no ato de criação ou de criação no ato psicanalítico e acrescentam a essa reflexão uma discussão acerca da subjetividade presente no processo de criação de modo a pensar criticamente sobre a posição do sujeito na contemporaneidade, produzindo uma contribuição que valhe conferir.

No âmbito da metapsicologia situa-se o artigo As três formas de negação à castração de Francisco Ramos de Farias que aborda a questão da diferenciação das três estruturas clínicas tal como formula o saber psicanalítico. O autor parte do rastreamento das indicações, no texto freudiano, que apontam para a circunscrição de um mecanismo defensivo empregado, tanto para explicar a dinâmica do processo de constituição da cria humana como ser desejante; quanto as diferentes expressões da fenomenologia clínica que são observadas em circunstâncias nas quais ocorrem o fracasso do processo defensivo. A diferenciação é estabelecida a partir dos seguintes operadores estruturais: castração materna, anterioridade paterna, modalidade de saber, fenômeno clínico e mecanismo estrutural considerado como possibilidade de resposta à castração. A leitura sobre a neurose, a perversão e a psicose é realizada em termos da particularidade de cada um desses operadores, do que resulta a conformação de um estatuto próprio para cada modalidade de funcionamento da linguagem; maneira como a psicanálise formula a passagem da cria humana, da condição de natureza para o estado de cultura. Sendo assim, o texto transparece questões fundamentais para o exercício da prática psicanalítica no âmbito da experiência com o inconsciente.

Ainda no campo das discussões acerca da clínica encontramos o artigo Psicanálise, psicoterapia e autoajuda no qual Daniel Franco de Carvalho e Laéria Fontenele fazem um cuidadoso estudo, alertando para o fato de que, muitas modalidades de terapêuticas apresentadas como novidades, no cenário da clínica contemporânea, nada mais são do que uma reedição disfarçada de práticas sugestivas utilizadas e bastante criticadas no início do século XX, no contexto da prática clínica da psicanálise e também em outros, especialmente devido à ineficácia das terapêuticas fundamentadas no componente sugestivo apenas. Há também um aspecto que foi alvo de muitos ataques, especialmente em relação à questão de natureza ética. A questão ética não pode ser descartada em função dos aspectos indesejáveis e imprevistos que tais terapêuticas podem causar. Nisso então reside a riqueza do artigo, o que justifica a sua leitura, visto que os autores centram sua escrita em uma criteriosa compreensão no sentido de demarcar as balizas de três procedimentos clínicos, situando em relação a cada um seus efeitos e agenciamentos. A digressão acerca da situação das práticas terapêuticas orientadas pelo discurso da neurociência é bem fundamentada, no sentido de demonstrar quais vetores ocultos sustentam a circularidade de neurofármacos, ofertados como bálsamos, de efeito imediato, para aplacar as agruras do sofrimento humano. Há, no texto, o alerta sobre a possibilidade de serem, essas práticas, formas claras de adaptação do homem às condições do mundo globalizado cujo critério de ordenação e funcionamento é o consumo. Além do mais, os autores acenam para o perigo maior concernente aos efeitos dessas terapias em termos do nivelamento do homem com o risco do apagar as ranhuras de singularidade, produzindo séries robotizadas. A leitura do artigo flui tanto pela sua escrita cuidadosa e criativa quanto pelo teor argumentativo que é apresentado. Por isso, temos em mãos uma rica contribuição para o campo clínico da psicanálise.

Ainda permeando a difícil seara da clínica psicanalítica o artigo de Maurício Eugênio Maliska intitulado Sintomas atuais e novas formas de gozo nos apresenta uma releitura do conceito de gozo atrelado à questão do sentido, partindo da apropriação da expressão “sintomas atuais”. Em princípio, o autor esclarece o sentido da palavra atual que adjetiva sintoma, recorrendo a argumentos que colocam, lado a lado, o atual e o virtual. Sua argumentação é a de que o sintoma teria, por assim dizer, duas vertentes: uma atual, visto ser a atualização de algo e outra, antiga, pois se trata de algo com que o sujeito mantém uma longa convivência. Feito esse esclarecimento o texto no encaminha na direção de compreender que a expressão “sintomas atuais” deve ser considerada como a reedição de antigas formas de sofrimento psíquico apresentadas, no contexto atual, com outras terminologias. De resto, o artigo sugere, de forma bastante elucidativa e esclarecedora, que o sintoma é o lugar do gozo neurótico. Porém o gozo pode também vincular-se a outras circunstâncias da vida que são esboçadas a partir do ensino de Lacan. Não obstante, a recomendação lacaniana é a de que a análise possa seguir a direção no sentido de fazer com que o gozo não gere mais sintoma, mas que o sujeito seja capaz de gozar e produzir na vida. Eis a importância que o autor atribui a essa questão, o que faz do artigo um texto interessante e instigante para a clínica, principalmente por trazer a discussão, tão cara ao saber psicanalítico que é o final de uma análise.

Da clínica e ainda na clínica, mas em um voo rasante pela literatura encontramos o artigo de Marcia Pedruzzi e Maria Cristina Candal Poli, intitulado Transmissão e endereçamento: do campo da palavra, um retorno ao sujeito, onde as autoras valem do conto do escritor Alan Poe A carta roubada para tecerem importantes considerações sobre a clínica, tomando a análise como a possibilidade de uma escrita sobre a memória do sujeito em um tipo particular de endereçamento. O texto de Alan Poe é cuidadosamente esmiuçado em suas filigranas para daí serem retirados elementos elucidativos sobre a questão da transmissão da experiência em psicanálise e também em outros domínios, nos dias atuais. As autoras centram-se na questão do endereçamento em psicanálise seguindo as sinuosas vias que são dadas por Alan Poe para uma reflexão sobre o testemunho que, pelo viés da escrita, pode fazer um endereçamento de suas memórias. A riqueza com que as autoras se apropriam das metáforas expostas no conto é o ponto de partida para a elucidação de uma questão que pretender diferenciar a letra, a escrita e uma carta, demonstrando que a letra é o signo de uma experiência que deve ser considerada como uma perda de gozo. Já no tocante à carta encontramos a belíssima metáfora que a define como “uma fala que voa”. No entanto destacam as autoras que o destino da carta nas diferentes mãos em que passa pode ser pensado em termos da ordem simbólica que constitui o sujeito e daí há uma remissão à proposição freudiana de que, em uma situação de análise, temos a possibilidade de uma analogia entre lá onde isso era, o sujeito deve advir e o aforismo de Lacan para saber que se estala, só há um método que é discriminar a rede. Prosseguindo em uma acurada reflexão as autoras sustentam que a experiência com o inconsciente desvela que o eu não é o senhor de sua própria casa. Finalizando há a reafirmação da escrita como solo propício no âmbito da transmissão do saber. Por fim, a produção de uma memória, de uma verdade, de uma certa ficção é indicada como sempre relativa ao Outro encontrado no esteio da ordem simbólica. Artigo instigante e escritos de forma criativa o que se apresenta como um convite irrecusável à sua leitura.

Da clínica psicanalítica à literatura aportamo-nos em uma discussão interdisciplinar em que Rogério Lustosa Bastos, em seu artigo Freud, a cultura e a tanatologia: uma leitura de Marcuse na obra social freudiana, nos oferece uma articulação da Psicanálise com o campo da cultura, especialmente fundamentado nas argumentações de Marcuse. O conceito central que guia a sua escrita é o de pulsão de morte o que é apresentado, no texto, em uma criteriosa digressão como também são traçados diálogos com interpretações de outros campos do saber. A interessante proposta é a realização de uma leitura do que pode ser considerada a obra social de Sigmund Freud a partir das formulações de Herbert Marcuse focalizando especialmente a obra “Eros e civilização” na qual são apresentados argumentos convincentes para se pensar que é possível abrir um espaço, no âmbito do saber psicanalítico, para a discussão de temas como utopia além da reconceituação do princípio de realidade. Seguindo por essa linha de raciocínio, o autor se dedica à discussão da Tanatologia a partir do legado freudiano. No âmago dessa reflexão é apontado dilema advindo das explicações freudianas para a vida do homem, especialmente se considerarmos a exortação freudiana de que individualmente o homem é inimigo da vida coletiva, visto que, para que conviver socialmente terá que colocar diques em sua pulsão, pelo menos, em termos da satisfação total. Essa e outras tantas instigantes apreciações são tecidas, fio a fio, nesta bela escrita, tanto em tons argumentativos precisos quanto na elucidação de pontos teóricos do pensamento freudiano que são revisitados a partir das ideias de Marcuse. Por esse motivo, deixamos ao leitor suas próprias conclusões desde que se debruce, de forma atenta, à leitura desse artigo.

Os dois ensaios propostos para esse número são de dois colaboradores: um francês e um argentino, que propomos que fosse aqui publicado nas versões originais em francês e espanhol, com as devidas traduções para o português. Aliás essa é uma  medida que passaremos a adotar com todos os nossos artigos traduzidos. Eles passarão a ser publicados na sua língua original, além da tradução em português, de modo a ampliar o acesso do leitor ao texto original.

O primeiro ensaio é do grande colaborador Alain Didier-Weill, renomado psicanalista e dramaturgo francês, que ganhou a tradução primorosa de Marco Antonio Coutinho Jorge. Trata-se de um texto breve que consegue fazer uma análise precisa e teoricamente muito bem articulada de um livro do filósofo francês Michel Onfray, lançado não faz muito tempo, intitulado “O crepúsculo de um ídolo: Fabulações freudianas”, no qual o autor ataca a vida e a obra de Freud. Didier-Weill se dedica a expor por que Michel Onfray não consegue criticar Freud. Argumenta que diferentemente de Sartre, Levinas e Lacan dentre outros que conseguiram isso, Onfray não ultrapassa o plano de uma negação conduzida pelo supereu.

O segundo ensaio trata-se de Convivência, odioenamoramento e gozo do Outro. Nele, a psicanalista argentina Maria Rosa Musollino, serve-se da obra “Dona Flor e seus dois maridos”de Jorge Amado para sustentar que por conta do amalgamento da pulsão de vida com a pulsão de morte, o “odioenamoramento” rege as tortuosas relações humanas e a fantasia preside o gozo, focalizando delicadamente suas implicações para a posição feminina.

Assim, curiosamente começando e terminando pela menção ao feminino, é com satisfação que concluimos este editorial, oferecendo ao nosso leitor mais este “cardápio” primorosamente preparado para sua degustação e seu bom proveito.

Por Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias





Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias

Marcelo Santos

Cassiana Lima Cardoso

Sonia Borges

Camila Baldicera Biazus e Graziela O. Miolo Cezne

Francisco Ramos de Farias

Daniel Franco de Carvalho e Laéria Fontenele

Mauricio Eugênio Maliska

Márcia Pedruzzi e Maria Cristina Candal Poli

Rogério Lustosa Bastos

Ensaios

Alain Didier-Weill

Alain Didier-Weill

Maria Rosa Borgatello de Musolino

Maria Rosa Borgatello de Musolino
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:45
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Bruno Carvalho,
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 22:46
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Bruno Carvalho,
15 de out de 2016 23:12
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