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Revista v. 10, n. 01

Nossa revista Psicanálise & Barroco chega ao décimo ano de sua existência. O percurso até aqui, embora pleno da grande satisfação de veicular artigos, resenhas e ensaios de grande qualidade, favorecendo além de profícuas trocas entre pesquisadores, o deleite dos leigos e interessados nos temas que abordamos, promovendo a transmissão do saber de modo a valorizar desde o princípio a conexão da psicanálise com a arte, a ciência e a cultura, contou com inúmeros percalços.

A revista, originalmente vinculada ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em Subjetividade e Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF/MG, migrou para a linha de pesquisa Memória, Subjetividade e Criação do Programa de Pós-Graduação em Memória Social, ampliando sobremaneira, suas conexões de modo a consolidar sua vocação transdisciplinar. Assim, passamos a receber com fluência ainda maior, artigos do campo da memória social, da filosofia, da literatura, dentre outros.

As dificuldades de nossas condições técnicas, a escassez orçamentária para sustentação da revista, não nos fizeram recuar. Muito pelo contrário, avançamos sempre. Aumentamos e renovamos nosso quadro de pareceristas, aumentamos a quantidade de artigos em cada número e melhoramos a qualidade da revisão e formatação dos mesmos. Tudo isso, contando com a adesão de profissionais de alta qualidade que resolveram encampar a causa de nossa revista.

Encontramo-nos num momento de profundo reconhecimento e gratidão a todos que nos acompanharam em algum momento de nosso percurso e a todos que continuam incansavelmente a aderir a nossa causa, colaborando de inúmeras maneiras.

Para além e aquém do furor quantitativo e produtivista que assolou a academia e todas as suas produções, pudemos nos manter fiéis aos princípios que nortearam a fundação desta revista. Podemos nos orgulhar da contribuição que ela prestou e vem prestando à comunidade científica.

Queremos ampliar ainda mais, queremos agregar mais recursos, queremos aumentar nossa divulgação. Temos sede de modernização. Por isso nossas portas estão sempre abertas a todos que são mordidos pela paixão pela escrita e por sua veiculação. Os convidamos a trabalharem conosco. Em tempos de redes de diversas naturezas, tentamos favorecer aqui uma rede de trabalho, onde o rigor do saber não se deixe engessar pela burocracia acadêmica, ainda que respeite seus métodos.

Não acreditamos numa ciência sem criação. Não concebemos a psicanálise sem invenção. Não vislumbramos a arte sem subversão. Não defendemos o engessamento da concepção de subjetividade, da memória, muito menos da memória social. Não recomendamos uma relação com a filosofia, ou com a literatura, ou com as ciências sociais, sem o acolhimento do eco do dinamismo da vida.

Embora todos os trabalhos por nós publicados sejam de responsabilidade de seus autores, nossos leitores podem estar certos que não somos omissos e descomprometidos com o que publicamos. Se acolhemos um trabalho, via sua publicação, é porque em alguma medida vislumbramos nele uma possibilidade de transmissão de nossos princípios.

Assim sendo, passamos a apresentação desse novo número para o qual, homenageando o programa que nos acolheu, escolhemos como  texto de abertura o trabalho que privilegia a temática da Memória Social. Trata-se do artigo Caminhos da Memória Social do Hospital de Custódia e tratamento Heitor Carrilho: uma investigação filosófica. Nele, Diana de Souza Pinto e Uriel Massalves do Nascimento propõem um interessante cruzamento entre aspectos da fenomenologia de Heidegger e um modo de investigação da Memória Social. O conceito de armação nesse filósofo vem servir de instrumento metodológico para se pensar como uma Memória se constrói numa instituição cuja natureza visa o esquecimento dos internos.

O próximo texto também se vincula a questões da memória, já que  tem como título  A recordação infantil e a constelação parental de Leonardo da Vinci: psicanálise, constituição subjetiva e biografia. Mas esta aparece enfocada a partir de outra perspectiva. Aproveitando os cem anos de publicação do estudo de Freud sobre o artista, Douglas Emiliano Batista, tomando tal estudo como a contribuição que a psicanálise traz por sua concepção de constituição subjetiva, considera que esta propiciou importante elucidação do enigma da vida e obra de Leonardo, na valorização de sua infância como berço das motivações que parecem tê-lo guiado em suas incontáveis produções tanto artísticas quanto científicas.  Salienta que Leonardo pode despontar na biografia de Freud como na justa medida de um sujeito que ainda que tributário de uma forma histórica de socialização, não se limitou as contingências das tradições.

Em sequência, lhes apresentamos o instigante artigo O paradoxo da coexistência de saberes: psicanálise e o poder judiciário  de autoria de Felipe Coutinho.  Nele, o autor abordando a coexistência de saberes no âmbito da rede pública, a partir de  uma situação ocorrida no Centro de Acolhimento à Infância e à Adolescência (CAIA), organização não governamental do município de Juiz de Fora (MG) faz uma reflexão que entrecruza uma política que ocupa-se do público, seja no âmbito da saúde, da educação, etc. com o que se pode pensar acerca da posição do analista nesse âmbito.  Se o discurso jurídico sustenta o direito de todos em detrimento do direito de Um. O desejo do psicanalista não pode se furtar ao olhar sobre a singularidade, focalização do Um em relação a todos.

Por esse olhar sobre o Um, chegamos ao artigo de Ronaldo Manzi Filho que se apoia na contribuição lacaniana entre 1956 e 1961 para fazer  uma análise do modo como as relações amorosas se estabelecem em nossos dias, com a ênfase na fixação imaginária do objeto de investimento libidinal, diferentemente do que se passava com os antigos, que mais voltados para a tendência do que para o objeto se encontrariam menos presos ao ciclo alienante que faz prevalecer o registro imaginário, com todas as suas armadilhas narcísicas.  No texto intitulado Ages conforme o teu desejo?- Uma reflexão sobre as relações amorosas segundo Lacan, o autor recorre ao estudo da ética da psicanálise para localizar o lugar ocupado pelo desejo em sua dimensão trágica, para tecer considerações muito pertinentes tanto sobre a função do psicanalista quanto sobre a contemporaneidade.

Nessa mesma perspectiva de valorização da singularidade, na sequência, lhes apresentamos  o artigo de Silvana Tatto e de Marcos Medeiros, A escrita na loucura: uma questão de inscrição.  O mesmo trata da escrita como via de possibilidade de inscrição subjetiva buscando contribuir com o estudo da psicose e de sua clínica. Os autores defendem que o “psicótico ao escrever cria um corpo, um nome público, uma vida, uma forma de transmissão de algo que possa ser compartilhado.”Desse modo, a escrita na psicose, que não é uma escrita qualquer, viria em suplência a uma carência no registro simbólico, lhe possibilitando barrar a invasão do exterior que o ameaça todo o tempo.

Enveredando ainda pelo viés da Clínica, encontramos o artigo Morte, angústia e família: considerações psicanalíticas a partir de uma unidade de terapia intensiva de Camila Araujo Lopes Vieira e Gardênia Holanda Marques que é bastante ilustrativo, no sentido de focalizar um aspecto particular de pessoas que se encontram em terapia intensiva: a compreensão do processo de acompanhamento da parte de familiares do doente. Destacam as autoras que é possível realizar uma escuta psicanalítica, nessas condições, considerando o dispositivo clínico como um espaço virtual no qual se instala a transferência, como também tem lugar a associação livre e a atenção flutuante.

A finalidade dessa escuta, enfatizam as autoras, consiste em possibilitar um tipo de reorganização psíquica, quando é criado um espaço de expressão para a experiência dolorosa de quem acompanha um familiar doente, especialmente, ante a possibilidade iminente da morte.

O texto discorre, numa escrita convidativa à leitura, sobre o cotidiano de um paciente em uma UTI, experimentando angústias intensas em relações às múltiplas sinalizações da morte, diante também das angústias e expectativas de seus familiares. A esse respeito advertem as autoras que a função do psicanalista, ao se fazer presente na instituição, deve ser a de ter o “cuidado de não ser tentado a combinar certa quantidade de análise com alguma experiência sugestiva”. Isto que dizer que não se deve lançar mão de estratégias com o objetivo de obter resultados mais rápidos, pois assim haveria o distanciamento da prática psicanalítica. Enfim, as autoras apresentam a UTI como um lugar da ordem do indizível, do não sabido; caracterizado por uma engrenagem em prol da vida. No entanto, nada há que seja, nesse lugar, um suporte para a morte.

O artigo de Joyce Bacelar Oliveira faz uma aproximação epistemológica à clínica pelo fato de problematizar o inconsciente já a partir de seu título: O inconsciente lacaniano. A tese da autora consiste em uma articulação entre a estrutura do inconsciente e o advento do sujeito desejante. Para tanto, o campo da Linguística é visitado visando a situar o modo como Lacan aborda esse conceito. Daí então são tecidas considerações, no sentido do estabelecimento de comparações, entre os mecanismos propostos por Freud, a respeito do processo de elaboração onírica: a condensação e o deslocamento, ao mesmo tempo em que é traçado um paralelo com os conceitos linguísticos metáfora e metonímia. Assim a autora sustenta que, de posse desses instrumentos conceituais, Lacan contextuou o inconsciente em uma nova configuração. Mas, devido à complexidade desse conceito Lacan recorreu também a Topologia. Um aspecto a ser considerado é o destacamento feito pela autora de dois momentos na teoria e na clínica lacaniana: “a clínica que privilegiou a lógica do significante nos processos inconscientes e a clínica do real”. Conclui que a diferença entre esses dois momentos na clínica reside no dato de Lacan ter apontado, no segundo momento, “um além da palavra, o indizível, o que não tem nome, nem nunca terá”. Por se tratar de uma argumentação contundente, justifica-se a leitura para descobrir a aproximação teórica sobre esse conceito: o inconsciente.

Seguindo o escopo da problematização epistemológica encontramos o artigo de Julio Cesar Lemes de Castro intitulado A dualidade do imaginário, entre Eros e Tânatos, no qual é feita uma discussão, bem consistente, entre a ambiguidade do imaginário e a dualidade pulsional. O autor passeia pela fase do espelho para nela situar o processo que oscila entre a identificação e a rivalidade no encontro do infans  com sua imagem. O ponto argumentativo apresentado parte da articulação entre a tópica do imaginário e a pulsão, momento em que o autor desenvolve sua tese assinalando que o imaginário canaliza a libido e assim está a serviço de Eros, mas também assume aspectos agressivos, colocando-se do lado da pulsão de morte. Eis a tônica utilizada no desenvolvimento das ideias trabalhadas no texto de forma brilhante e original.

Ainda no terreno da metapsicologia o artigo Tornar-se analista de Lavínia Carvalho Brito Neves discute uma questão que sempre inquietou e ainda inquieta os analistas: a especificidade da formação do psicanalista. A autora apresenta-nos um roteiro para refletir essa questão, considerando o processo de análise pessoal e a passagem da condição de analisante a de analista.

O ponto de partida de suas formulações é o pensamento freudiano, de onde são cotejados aspectos operadores conceituais em diferentes momentos da obra. Em relação à fase final do pensamento freudiano é sinalizado que, no que concerne à formação do analista, “o que se aprende na transferência não se esquece” indicando assim a dinâmica do dispositivo analítico como o lugar estabelecido pelo analista para conduzir o trabalho com o analisante. Por esse viés, a autora estabelece uma relação entre o fim de análise, pensado como a travessia da fantasia, porém compreendido como uma possível encenação do objeto causa de desejo e o desejo do analista. Daí focaliza o real da experiência, enfatizando que se trata de uma formação infinita e permanente. Essa conclusão é fundamentada no pensamento de Lacan apresentado em relação à demanda de um sujeito que afirma seu desejo em termos de querer ser analista, razão pela qual o tornar-se é trabalho entendido como o ponto chave da formação, sugerindo assim que esse querer nunca encontra seu término, ou seja, o analista, como afirma a autora, torna-se analista todos os dias em que ouve um analisante.

No espírito da perspectiva interdisciplinar apresentamos o artigo Theodor W. Adorno e a esperança no progresso de Sandra Faria de Resende Nascimento e Kety Valéria Simões Franciscatti que trabalham a noção de progresso em uma articulação à noção de esperança no âmbito da Filosofia.

As autoras fazem um rastreamento no pensamento de Adorno para situar, direta ou indiretamente, os momentos nos quais o conceito de esperança é aventado, pois não aparece claramente em sua obra. No intuito de trabalhar as contribuições de Adorno são tecidas considerações acerca da ideia de progresso de modo a situar essa ideia como uma grande armadilha para o homem na segunda metade do século XX, uma vez que tal ideia exige, necessariamente, o redimensionamento da razão e de suas certezas. Por esse motivo, a esperança no progresso é apresentada como uma alternativa desesperada.

Não obstante, feito esse esclarecimento, o acento colocado pelas autoras recai na ideia de esperança, mas desvinculada da concepção de algo transcendental, para ser analisada em um contexto relacional que congregue o homem, a sociedade, a natureza e a cultura. Enfim, concluem as autoras que a esperança refere-se à “potencialidade humana de busca pela liberdade, o que implicaria seu progresso”. Assim a articulação entre os dois conceitos é devidamente construída a partir de argumentos que consideram a configuração da ordem social.

O último artigo desse número intitulado O grande dragão vermelho: paranoia e psicose” é de autoria de Socorro de Fátima Pacífico Barbosa e Thays Rochelle Carvalho Figueiredo. Nele as autoras realizam um passeio pelo cinema, literatura e psicanálise, abordando, de forma bastante interessante, um personagem que teve e ainda tem expressão considerável no século XX, em termos da dificuldade de entendimento das motivações de suas ações criminosas: o serial killer. Muitos foram os pensadores que tentaram explicar as razões pelas quais alguém se encarrega da prática de assassinato em uma sequência infindável. O que dizer de alguém que toma ofício matar? Eis a pergunta que o texto se ocupa em responder, partindo de uma metodologia de trabalho, demostrando como  a arte cinematográfica incorporou conceitos da psicanálise, para trabalhar questões relativas a determinados criminosos que colocam em xeque as explicações teóricas até então conhecidas em vários campos do saber científico e também do senso comum.

Nesse contexto a literatura policial é convocada, tanto no âmbito do roteiro de filmes quanto de textos que podem ser lidos a partir do instrumental teórico da psicanálise. Essa conjunção leva as autoras a analisarem o personagem principal desse filme, considerando a paranoia. Nesse sentido é feita uma reflexão entre a paranoia e a psicose numa escrita que convida o leitor a acompanhar o empreendimento realizado. A conclusão apresentada é a de que, nos crimes do serial killer, pode ser destacado um ponto de reflexão: é insuportável ao sujeito reconhecer seu eu e seus desejos destrutivos. Esse é o argumento do qual as autoras se valem para explicar as motivações do serial killer a luz das considerações formuladas a partir da teoria psicanalítica. A falta de reconhecimento e a incapacidade de avaliação do alcance da destrutividade do desejo levam o serial killer a ação na forma de uma paixão enlouquecida que por nada se apazigua.

Finalizamos esse número com a resenha de Vanise Maria da Gama Moret Santos, intitulada Em torno de um olhar impossível, sobre o livro de Paulo Proença Em torno de Alberto Giacometti. Vania apresenta, em uma construção de uma escrita bem contundente a obra de Paulo Proença, destacando e trabalhando os aspectos que a caracteriza: a articulação entre a arte, a ética e a psicanálise. Vale a pena conferir!

Por Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias





Denise Maurano Mello e Francisco Ramos de Farias

Diana de Souza Pinto e Uriel Massalves de Souza do Nascimento

Douglas Emiliano Batista

Felipe Barreto Nery Coutinho

Ronaldo Manzi Filho

Silvana de Oliveira Tatto e Marcos Pippi de Medeiros

Camilla Araújo Lopesvieira e Gardênia Holanda Marques

Joyce Bacelar Oliveira

Julio Cesar Lemes de Castro

Lavínia Carvalho Brito Neves

Sandra Faria de Resende Nascimento e Kety Valéria Simões Franciscatti

Socorro de Fátima Pacífico Barbosa e Thays Rochelle Carvalho Figueredo

Resenha

Vanisa Maria da Gama Moret Santos

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Bruno Carvalho,
12 de out de 2016 10:29
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Bruno Carvalho,
12 de out de 2016 10:30
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Bruno Carvalho,
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