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Revista v. 11, n. 01

Nesse novo número que ora disponibilizamos aos nossos leitores muitas são as contribuições advindas de várias áreas, firmando cada vez mais o caráter transdisciplinar desse periódico e portanto, sua vocação de favorecer o estabelecimento de conexões.  

Comparecem nesse novo lançamento, além de artigos que contemplam reflexões acerca de expressões artísticas como o barroco, o realismo de Courbet, e o surrealismo de André Breton, considerações sobre a relação entre a psicanálise e a música,  o teatro, a literatura,  a medicina, a filosofia, a ciência e o  direito. 

Nosso cardápio está bastante variado e começamos por apresentar-lhes o interessante texto de Vera Pollo e Rafaelle Sá da Costa Entre o Direito e a Psicanálise: o abuso e a brincadeira sexual. Nele as autoras, atentando para a novidade da escandalosa descoberta de Freud no início do século passado, acerca da presença da sexualidade na infância, alerta os legisladores, responsáveis por garantir os direitos das crianças e adolescentes para que não sejam expostas a atos de violência e abuso sexual, quanto ao risco dos julgamentos apriorísticos que identificam essas crianças e adolescentes como abusados ou abusadores frente ao Outro social. Sinalizam que isso pode lhes gerar graves consequências. Através de uma análise minuciosa sobre a concepção jurídica de violência sexual contra vulneráveis, explanam os conceitos psicanalíticos de ato criminoso e sexualidade infantil, para em seguida usarem as descrições de Ariès (2011) sobre os primeiros anos da vida do pequeno príncipe  Luis XIII a fim de ilustrarem o quão tênue é o limite entre o abuso e a brincadeira sexual e o quão importante é não desconsiderar a complexidade do despertar sexual.

Convidamos em seguida, para apreciarem o artigo Escritas do excesso, nas margens: a voz exaltada no Barroco  de Renata Mattos, no qual a autora ressaltando a importância da música para Psicanálise, sublinha a inclusão feita pelo psicanalista Jacques Lacan, da voz tomada como objeto na invocação do ponto de onde o sujeito do inconsciente pode emergir.  Ser ouvido, ouvir, fazer-se ouvir, implica reviramentos e desdobramentos, que conduzem a autora  a pesquisar os avanços fundamentais ao tema feitos por Alain Didier Weill e a propriedade do Barroco, e mais propriamente, da música barroca, enquanto linguagem do excesso a qual seria facultada por sua construção alegórica um recurso frente impossibilidade de dizer o real. Além de valer-se da noção de alegoria de Benjamin, utiliza-se também das noções de Deleuze de dobra, para indicar as dobras infinitas do manejo da voz no endereçamento ao Outro.

A questão da angústia advinda da confrontação do sujeito frente ao real, em sua dimensão de inacessibilidade, dado que dele só podemos saber acerca do que construímos imaginaria e simbolicamente, é o mote da reflexão de Mariana Rodrigues Festucci Ferreira intitulada Do significante fálico como a chave do enigma em “A origem [simbólica] do mundo” de Courbet  Através de alguns comentadores do quadro, a autora argumenta que experiência de estranhamento diante da representação do genital feminino, mais do que ser uma referência à representação da castração indica o que escapa a ela, ou seja, aponta o Real irrepresentável, o que inevitavelmente suscita angústia. A partir disso sustenta que a propriedade da sublimação frente a esse vazio aterrorizante está em não negá-lo, mas em promover uma presentificação da falta, como meio de sustentar esse vazio, com toda a sua fecundidade. Um belo trabalho que vale ser conferido.

Na via de evidenciar que o que chamamos de corpo não é uma realidade dada, e que portanto, é preciso” fazer um esforço para atrelar o corpo a um si mesmo”  o texto seguinte “Eu não tenho boca”: considerações sobre o delírio das negações de Regina Cibele Serra dos Santos Jacinto e Ana Maria Medeiros da Costa, trata desse delírio, também chamado síndrome de Cotard, designada por negações hipocondríacas que incidem sobre a integralidade do corpo ou de partes deste, fazendo um contraponto entre esse delírio e  a denegação freudiana. Curiosamente, apontando a importância dos orifícios na constituição do corpo e da imagem corporal, visam evidenciar as consequências da identificação a uma imagem sem abertura, um corpo sem buracos, o que nos remete imediatamente ao artigo acabamos de apresentar.

Ainda acerca do corpo, mas por um viés diferente e interessante, Renata Daflon Leite, nos propõe o artigo O ‘corpo Outro’: a construção do corpo cênico do ator/performer numa perspectiva artaudiana. Nele, partindo de referências a figuras mitológicas da alteridade, como Artemis, Dioniso e Gorgó, relacionando-as à emergência do estranho como elementos constituintes do jogo cênico, a autora propõe que “a performance e a ação cênica buscam a construção de um outro corpo, implicado em desfazer o eu enquanto unidade regrada para ir ao encontro da multiplicidade de fluxos do devir.” Para sustentar suas proposições vale-se da concepção nietzschiana de uma subjetividade carnal e do conceito artaudiano de corpo-sem-órgãos. 

O artigo de Mahamoud Baydoun intitulado: Arte não é psicose: uma reflexão sobre o “eu” do ator, estabelece um diálogo, extremamente criativo entre o campo teórico do saber psicanalítico e o universo das artes cênicas pelo viés da dinâmica relativa à construção dos personagens pelos atores. O teor argumentativo do qual o autor se vale, realizado em fecunda pesquisa teórica, tanto na literatura psicanalítica, quanto nas artes cênicas, focaliza o espectro de dualidade própria do ator quando materializa-se cenicamente em um personagem. Esta dualidade é presentificada por meio de um controle daquilo que o autor denomina de “eu real” sobre o “eu representativo”. Assim, o texto envereda num percurso que centraliza as discussões, tendo como eixo de abordagem a essência do movimento artístico em si, para então apresentar uma contribuição quando se lança no âmbito da produção psicótica, mas de modo cauteloso fazendo a necessária distinção entre esse tipo de movimento que supõe uma dualidade e a psicose considerada em termos de uma fragmentação do ego. O que há de singular, na elaboração do autor, reside no fato de que quando o ator volta-se para construir um personagem, toma como parâmetro seu próprio eu, de onde emerge um “eu representativo” o qual nasce do “eu real” do ator. A partir dessa consideração, o autor conclui que tudo aquilo que entra na composição de um personagem, fundamenta-se no narcisismo do ator, mesmo considerando a interferência do escritor e do diretor. Quer dizer, a principal fonte do personagem será sempre o próprio eu do ator. Essa conclusão leva o autor a afirmar, com propriedade, em qualquer circunstância, o personagem levado à cena é sempre um reflexo do ator, independente da caracterização produzida pelo dramaturgo e as nuanças alicerçadas pelo diretor.  As linhas conclusivas do autor são bastante inovadoras principalmente quando argumenta que “a arte presentativa contemporânea é uma arte que permite o aflorar do inconsciente e consequentemente acaba transmitindo suas características”. Por isso, ao considerar essa modalidade de arte em que há o esfacelamento da linearidade das ações, contata-se, por outro lado, que há, em consequência disso, um “equilíbrio entre a aleatoriedade e a ordem”. Desse modo, a arte é considerada, não mais como simulacro da verdade conforme pretendia Platão, nem como uma mera busca de representação, ou seja, o autor leva-nos a pensar que a arte deve ser considerada como um reflexo da realidade interna do artista.  Esse é o teor de suas conclusões que são feitas a partir de argumentos críticos. 

Do convidativo diálogo da Psicanálise com o campo das Artes Cênicas enveredamos pelo terreno da psicopatologia onde André Goettems Bastos nos brinda com uma profícua descrição sobre uma síndrome num artigo intitulado: Um estudo psicanalítico sobre a síndrome de Tourette. O autor parte de uma circunscrição da síndrome no âmbito da neuropsiquiatria para nos informar que esta síndrome já era abordada desde a Idade Média. Acrescenta que coube a Psicanálise a tarefa de investigar a origem dos sintomas que compõem essa síndrome, razão pela qual o texto norteia-se na vertente interpretativa, analisando determinados fenômenos psíquicos dessa patologia. Para trabalhar essa hipótese o autor lançou mão de passagens do canônico texto freudiano a Interpretação de sonhos, visando, sobretudo, a compreensão da dinâmica psíquica dos pacientes que apresentam essa síndrome, especialmente, pelas interferências e impactos na vida desses pacientes no manejo das circunstâncias decorrentes da mesma. Nessa linha de raciocínio, o autor aponta que os fenômenos caraterísticos da síndrome com os tiques são “originados psiquicamente e transformados em atos corporais, mas isso não significa que não possamos considerá-los como produções subjetivas constituídas a partir de uma concepção epigenética do sujeito”.

Daí ser importante, no exercício da clínica, toda a atenção para as demandas expressas pelo sujeito, numa espécie de sensibilidade do olhar com foco na subjetividade. Embora inicialmente o texto verse sobre o caráter descritivo da síndrome, observa-se um aprofundamento no contexto da clínica o que confere ao artigo a sua singularidade, sendo esses um dos principais motivos para a sua leitura, pois há um encaminhamento sobre a maneira como o saber psicanalítico pode ser convocado na análise e interpretação dos fenômenos relativos a uma síndrome dessa natureza.  

Após percorremos várias veredas do campo interdisciplinar nesse número que ora apresentamos, fazemos um passeio pela Literatura com o artigo de Arnaldo Rodrigues Bezerra Filho intitulado: Significante puro e gozo n’a causa secreta de Machado de Assis, no qual o autor persegue um fio condutor, utilizando de conceitos psicanalíticos, na sua reflexão acerca do conto A causa secreta. O autor nos convida a enveredar pelo universo de Machado de Assis naquilo que tangencia os aspectos da subjetividade humana tomando como guia os conceitos lacaniano, destacando sobretudo, nos personagens, ações que são interpretadas no contexto da perversão sádica. Na circunscrição do contexto literário, há claramente o emprego das noções de gozo e significante puro como instrumentos teóricos que dão corpo àquilo que o autor denomina de ação sádica, descrevendo situações que caracterizam o núcleo dessa ação. Daí então somos convidados a nos deparar com a ação do protagonista que expressa sua estranha reação prazerosa em um cenário que tem nuanças bastante peculiares. De um lado, há o reconhecimento da dor do outro, porém isso não é um limite para o personagem que, de outro, fundamenta sua ação sádica em sua estrutura subjetiva, ou seja, todo o núcleo dessa ação aponta para a dinâmica do gozo marcado pela incidência do significante puro. 

Depois dessa incursão pela Literatura, retomamos o contexto da clínica, especialmente a sua fundação como o artigo: A beleza será convulsiva ou não será: o discurso histérico e estética da histeria na obra surrealista Nadja, onde os autores Antonia Motta Roth e Marcos Pippi de Medeiros tecem um texto demonstrando com a escuta do sofrimento enunciado pelas histéricas possibilitou a fundação da Psicanálise por que, em um trabalho posterior de exegese, Lacan eleva o discurso histérico à condição fundamental do processo analítico. Seguindo esses pressupostos, os autores sinalizam como a clínica da histeria, no contexto da Psicanálise, é um campo de interrogações que trazem para o centro das problematizações questionamentos do campo da arte, especialmente a estética. É, sem dúvida, em relação à Estética que a histeria pode ser interrogada e assim os autores apresentam uma articulação precisa e bem construída em que, de um lado, situam o discurso histérico e, do outro, a estética da histeria no movimento artístico surrealista, elegendo a obra literária Nadja de André Breton para elaborar construções teóricas sobre esse possível encontro. Começam, apresentando o personagem Nadja como sujeito marcado pelo recalque, em sua irremediável divisão e este seria o ponto chave que marca toda a articulação discursiva de Breton na construção dessa obra. A questão da divisão é apresentada pelos autores a partir do argumento encontrado no texto literário em razão do qual observa-se que a personagem ocupa a posição de Outro, interpretada como o significante mestre ao qual se endereça. O texto conduz o leitor a perceber que a personagem Nadja, enquanto marcada pelo recalque, seduz o seu criador André Breton, convocando a querer saber ou mesmo decifrar seu enigma. É por esse encaminhamento que a leitura desse artigo é de suma importância para questionamentos acerca do discurso histérico, trazendo assim contribuições valiosas para o campo da experiência de escuta do inconsciente. Nesse sentido, o trabalho clínico pode ser bastante enriquecido como o alinhamento das questões que os autores recortam no contexto do discurso histérico a partir do ensino de Lacan. 

Do campo clínica fazemos um pequeno detour para a metapsicologia no artigo de Vitor Ferrari intitulado: Rapport au savoir: quel est le prix à payer?. Esse conceito, oriundo do pensamento lacaniano é trabalhado pelo autor no sentido de elucidar condições que devam ser consideradas para o exercício da clínica psicanalítica em instituições e, em especial, na universidade, onde somos constantemente “confrontados com a questão da aprendizagem e do saber”. O autor destaca que a utilização da noção de relação ao saber é um instrumento valioso que permite compreender a dinâmica psíquica dos agentes que fazem seu encontro no contexto universitário: aprendentes e ensinantes. Esse é o encaminhamento apresentado pelo autor que minuciosamente trabalha a questão concernente à relação do encontro entre aqueles que engajam na transmissão do saber. Nesse sentido, a leitura é recomendada tanto para quem opera no campo clínico no contexto da universidade, no processo de transmissão de saber sobre o exercício da clínica, quanto para quem faz suas incursões no contextos das instituições de formação de psicanalistas. Em ambos os espaços a relação ao saber é uma questão a ser considerada e que tem seus efeitos diretos naquele que se ocupa da transmissão quanto naquele que recebe o legado cultural que é apresentado.

Endossando a forte articulação presente em nossa revista entre psicanálise e arte, o artigo Prelúdio à tarde de um fauno – sobre o sujeito como insistência, de Adriana Simões Marino, tece algumas considerações sobre o “Prélude à l’après-midi d’un Faune” (Prelúdio à tarde de um Fauno), composição musical do século XX de Claude Debussy, que teve sua origem em um poema oitocentista de Stéphane Mallarmé “L’après-midi d’un Faune” (A tarde de um Fauno) e como derradeiro um balé coreografado por Vaslav Nijinsky em 1912. A autora percorre essas diferentes expressões artísticas extraindo a insistência como ponto comum de ligação entre as obras. A insistência como marca do sujeito do inconsciente, atualiza aquilo que “não cessa de não se escrever” (Lacan, 1964/2008), mas que busca uma inscrição por meio da presença do sujeito na obra artística, como uma tentativa de organização em torno de um vazio de representação. O sujeito do inconsciente não permite a sua saturação em torno de nenhum sentido, há um desejo que insiste, que não se satura, não se deixar determinar ou capturar pelo significante, apontando a dimensão do impossível.

Seguindo-se a essa fascinante incursão pela arte, apresentamos o artigo A cientificidade da psicanálise: entre o cientificismo de Freud e suas articulações conceituais sobre o aparelho psíquico, de Márcio Ramos Ferreira.  Ao analisar os recursos epistemológicos utilizados por Freud, situa a posição da psicanálise frente a ciência e os efeitos das suas teorizações sobre o aparelho psíquico usando como ferramenta a hipótese lacaniana de sujeito da ciência. Lacan se apoia nos trabalhos de história da ciência de Koyré para demarcar os efeitos do corte que promoveu as condições de aparecimento de uma ciência moderna. No seu escrito A ciência e a verdade (1966/1998), afirma que o sujeito sobre o qual opera a psicanálise é o sujeito da ciência, hipótese que passa por Descartes na medida em que insere, por relação lógica, o pensamento na atividade científica, instaurando o sujeito da ciência no mundo moderno. O pensamento destituído de qualidades não é só necessário à ciência moderna, ele é também indispensável para fundamentar o inconsciente freudiano. O inconsciente freudiano é cartesiano, não porque esse é datado no mundo moderno, mas por afinidade discursiva. 

O último artigo dessa edição A estrutura e o além estrutura em Lacan: uma perspectiva acerca do estruturalismo e existencialismo na teoria e clínica lacaniana, de Joyce Bacelar Oliveira aponta a importância do estruturalismo no ensino de Lacan e no seu retorno a Freud, questionando, contudo, a supremacia da noção de estrutura muitas vezes conferida ao seu ensino. A autora denomina de além estrutura, as transformações subjetivas que o sujeito opera na sua estrutura, ou seja, a ressignificação da própria estrutura pelo sujeito. O objeto a, objeto causa de desejo, surge como efeito da inserção do sujeito na sua estrutura, sendo todavia, justamente a partir da relação do sujeito com o objeto a que se estabelece o além estrutura, a partir do momento em que o sujeito do inconsciente subverte a estrutura que lhe antecede e funda. Questiona o que é possível deslocar em análise da sobre determinação que é constitutiva desse que advém assujeitado ao campo do Outro. Deslocamento que é só é possível por uma posição e ética do sujeito, de responsabilizar-se por sua posição.

Propomos ainda a leitura da resenha Gozo e carne: Uma Abordagem da Fenomenologia Francesa Contemporânea de Carolina Detoni Marques Vieira Coutinho do livro de Jean-Luc Marion Le phénomème érotique. E, finalizamos em época de manifestações em nosso país, com o poema Parafraseando o Condor nelas inspirado, composto por Mavetse de Argos. A todos, uma boa leitura!
 
Por Denise Maurano Mello, Nilda Martins Sirelli e Francisco Ramos de Farias





Denise Maurano Mello, Nilda Martins Sirelli e Francisco Ramos De Farias

Vera Pollo e Rafaelle Sá da Costa

Renata Mattos

Mariana Rodrigues Festucci Ferreira

Regina Cibele Serra dos Santos Jacinto e Ana Maria Medeiros da Costa

Renata Daflon Leite

Mahamoud Baydoun

Andre Goettems Bastos

Arnaldo Rodrigues Bezerra Filho
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Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 11:03
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