Revistas‎ > ‎

Revista v. 11, n. 02

É com imenso prazer que Psicanálise e Barroco em Revista convida a todos para leitura de nossa mais nova edição. No segundo volume de nosso décimo primeiro ano de edição, contamos com uma diversidade de temas para deleite de nossos leitores. Os artigos discutem a clínica psicanalítica, e seu manejo nas diferentes estruturas clínicas, assim como a sua ética, uma diversidade de articulações com a arte e a filosofia, especialmente com Nietzsche e Benjamin, e a articulação entre psicanálise e ciência. Vamos então apresentar uma breve descrição de nossos artigos, para que possamos saboreá-los e deixar em nossos leitores um gostinho de quero mais…

No primeiro artigo Delírio e a invenção do saber: o delírio enquanto invenção de saber e a invenção de saber acerca do delírio, Raquel Coelho Briggs de Albuquerque aborda o importante tema da psicose, mais especificamente da construção delirante na paranóia. Nas vias freudianas, trata da importância da construção delirante, questionando seu manejo clínico, e a possibilidade do psicótico construir um saber sobre seu próprio delírio, se utilizando dele, mas também dele prescindindo.

O artigo O saber e o amor transferencial: na vida e na prática analítica, o sujeito é capaz de renunciar ao gozo para saber?, de  Luiza Pessin, trabalha a importante formulação lacaniana, de que o analista ocupa o lugar de sujeito suposto saber, e a esse que supõe um saber o sujeito ama. A transferência seria, portanto, efeito dessa suposição de saber que é antes de tudo constituinte para o sujeito, e a análise caminharia no sentido de “quebrar o encanto” que liga o sujeito ao Outro, e, logo, ao analista.

Sendo a transferência um dos conceitos fundamentais da psicanálise, como destacado por Lacan, O artigo A transferência e seu manejo clínico de Nilda Martins Sirelli, continua discorrendo sobre o tema trazendo um caso clínico que  aponta as dificuldades que o analista pode encontrar  frente a demanda transferencial. Freud ressalva que as únicas dificuldades realmente sérias que o analista tem de enfrentar residem no manejo da transferência. Manejo, prenhe de consequências, e isso para o melhor e para o pior. É por esse manejo que uma análise pode acontecer, mas é também por meio dele que esse mesmo processo pode ser interrompido. A autora aponta que a única recomendação que Freud nos dá, é que algo desse investimento direcionado ao analista só pode vir a ser manejado pela experiência de sua própria análise, via de não tentar reatar o que se escuta com a conservadorismo de nossa realidade psíquica.

O artigo O que pode o analista oferecer ao sujeito adolescente?,de Aline Lima Tavares, relata um caso clínico, articulando uma experiência de trabalho num abrigo municipal com a teoria e clínica psicanalítica sobre a adolescência.  Discute uma questão ética cara à psicanálise: a escuta como uma via para abrir possibilidades desses adolescentes se responsabilizarem por seu destino, apontando a falácia de querer-o-bem-do-sujeito, já que este, constituído a partir do real, resiste a qualquer tentativa de pastoral apregoada pela moral.

Ainda na discussão sobre a clínica, apresentamos o artigo Supereu, desejo e gozo: incidências na clínica da histeria, de Irvina Leite de Sampaio e Laéria Fontenele. O artigo trata de alguns efeitos advindos da incidência do supereu na histeria, estabelecendo pontos de aproximação e distanciamento em relação à neurose obsessiva. As manifestações superegóicas são abordadas levando em consideração o caráter paradoxal do Supereu, no que se refere a sua vinculação à lei, ao desejo e ao gozo, e, destacam ainda a hipótese de que na histeria o olhar, para além da voz, teria um importante papel na instauração do supereu. Ao discutir as particularidades do comparecimento da instância superegóica na neurose histérica, as autoras refletem acerca das consequências destas para a clínica e para a posição do analista.

Na sequência apresentamos o artigo A angústia diante do sucesso, de Maurício Eugênio Maliska. O autor retoma a discussão freudiana sobre a estranha reação de angústia frente ao sucesso, contrariamente ao que se poderia esperar, em que a angústia poderia ser uma reação frente ao fracasso. O autor aponta que o sucesso vem na forma de angústia, pois é a possibilidade imaginária de nada faltar; e o fracasso surge como um alívio dessa angústia. A saída da angústia aponta para a emergência da castração, que instaura o desejo como possibilidade de saída da angústia. Via que só é possível se o sujeito aceita a falta, a inconsistência do Outro inerente a qualquer sucesso.

Articulando psicanálise e cultura, temática cara a Psicanálise e Barroco, inauguramos uma série de artigos que vem tratar dessa relação, seja pelo campo da política de patrimonialização, ou por sua articulação com diferentes manifestações artísticas.

O artigo de Alexandre Fernandes Corrêa, Identificações cristalizadas: o reconhecimento na política cultural vigente, aponta que o reconhecimento é fator fundamental no processo identificatório e constitutivo do sujeito e do laço social, sinalizando os significantes valorizados e idealizados que servem de pontos de referencia para o Eu e sua identidade, porém, subjetividade e cultura se entrelaçam complexificando a discussão. Nesse contexto, o Estado, por meio de políticas públicas, mapeia o campo do que será reconhecido e patrimonializado, oferecendo identidades a priori e encenando identificações que se cristalizam em significantes fixos, auto-excludentes. A proposta do autor é que ao invés do reconhecimento favorecer a criatividade de uma identificação simbólica dialetizável, permitindo a criação e uma separação menos assujeitada, fruto de elaborações a posteriori, o reconhecimento fixado na patrimonialização excessiva reafirma o véu da alienação, transformando-se em poder de assujeitamento.

Abrindo uma série de artigos que trabalham a relação entre psicanálise e arte, apresentamos Essa escrita do impossível: uma abordagem do Real em “Um sopro de vida de Clarice Lispector”, de Ingrid Mara Cruz Klinkby e Paulo José Carvalho da Silva. Os autores estabelecem um diálogo entre a escrita literária de Clarice Lispector e alguns conceitos da psicanálise lacaniana. Trazendo a obra de Clarice Lispector, o artigo nos convida a passear por diversos de seus textos, como uma via de transmissão e discussão de diversos conceitos da psicanálise, especialmente em torno do que, embora se articule com a linguagem, é indizível, como o Real e a escrita.

Seguimos com o artigo Considerações sobre o belo através da filosofia nietzschiana: uma leitura de “O Retrato de Dorian Gray” de Yvisson Gomes dos Santos. O autor recorre a filosofia, especialmente a Nietzsche para nos trazer o seu conceito de belo, e com ele realizar a articulação com a obra de ficção O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Utiliza ainda  alguns apontamentos através da psicanálise como recurso complementar ao texto, no intuito de codificar o ideário do filósofo alemão com relação às suas considerações sobre o belo.

O artigo A experiência da poesia do amor em Dante Milano de Alexandre Fernandes Corrêa, traz uma importante contribuição aos estudos sobre o Imaginário do Mal e da Literatura, assim como para o aprofundamento da reflexão acerca das articulações possíveis entre amor, ódio e ignorância, tomando como ponto de partida a teoria lacaniana elaborada a partir das proposições de Baruch Spinoza. Com tal intuito o texto realiza uma incursão sumária sobre a história cultural do significante (LACAN, 1956/1988) ‘magia negra’ sobressalente na obra literária e na vida do poeta carioca Dante Milano (1899-1991).

Em Dimensões da sublimação na tragédia grega a partir da noção de feminino na psicanálise, Hevellyn Corrêa investiga a sublimação através da articulação entre o conceito de feminino em psicanálise e a tragédia grega, cotejando elementos que nos apontam uma dimensão da sublimação que porta características do feminino apresentadas na tragédia. A autora parte da falta, do vazio como ponto comum entre a tragédia grega e a psicanálise, que lhes confere movimento e os liga a um movimento criativo, tratando-se do desejo em sua condição eminentemente faltosa. Os paradoxos sustentados na tragédia grega – sobretudo pelas figuras femininas - denunciam esta base desejosa, mostrando que a contenção e o elogio ao horror realizado pelo trágico são de uma ordem não fálica, pois é enquanto gozo Outro que podemos pensar um trabalho sublimatório sustentado no pathos, compreendido a partir da dimensão criativa que seu conflito oferece.

No artigo Artur Llescher e o barroco na arte brasileira contemporânea Alessandra Affortunati Martins Parente analisa algumas obras do artista brasileiro Artur Lescher. A composição dessas obras parece ter origens antagônicas: por um lado, existem elementos cujas raízes poderiam ser escavadas no Renascimento e, por outro, há aspectos que remetem ao Barroco. Quando se toma distância de uma leitura mais comum acerca da arte de Lescher – que costuma ligá-la predominantemente à arquitetura modernista –, torna-se possível perceber uma faceta lúdica e infantil em suas obras. Nessa arte, a brincadeira deixa de ser um aspecto irrelevante e pueril para ganhar uma face subversiva. Ela navega na contracorrente de um espírito melancólico, próprio da modernidade e recupera a seriedade do brincar infantil. Esse lado irreverente e zombeteiro se vincula ao Barroco, mas ressurge em algumas obras de arte recentes, como as de Lescher. 

Anna Hartmann Cavalcanti nos presenteia com seu artigo Arte, fotografia e formas de percepção em Walter Benjamin. Walter Benjamin, em seus escritos “A pequena história da fotografia” e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, examina o impacto das transformações técnicas no processo de criação e recepção da obra de arte. Seu propósito é compreender como a reprodutibilidade técnica repercute e transforma o campo da criação artística e como tal transformação requer a produção de novas categorias estéticas para pensá-la. A partir da análise de ensaios de três fotógrafos dos séculos XIX e XX - David Hill, Karl Blossfeldt e EugèneAtget - Benjamin investiga como a imagem é capaz de captar dimensões efêmeras e desconhecidas da realidade, gerando reflexão e novas formas de percepção. Neste artigo, pretendo mostrar como os escritos de Benjamin permitem pensar a fotografia em uma perspectiva de experimentação e de reflexão, problematizando não apenas as rupturas resultantes do processo de transformações da arte pela técnica, mas a riqueza de possibilidades abertas pelas novas formas de arte.

Fechamos nossa edição com o artigo Psicanálise e Ciência: a emergência de um sujeito sem qualidades, de Márcio Ramos Ferreira e Sônia Alberti. O artigo visa contribuir com o debate entre a psicanálise e a ciência enquanto fundamento para a emergência do sujeito tal como definido pela psicanálise. Vale-se de considerações sobre o Cogito cartesiano, das formulações freudianas e das formulas de alienação e separação para levantar a hipótese de que a psicanálise, para além de subverter o sujeito cartesiano, e por ser filiada à ciência, é o instrumento mais eficaz para efetuar um furo no saberes biologicistas apoiados nas ideologias de quantificação do real e no erro epistemológico do realismo psicológico. A todos, uma boa leitura!

Por Nilda Martins Sirelli





Nilda Martins Sirelli

Raquel Coelho Briggs de Albuquerque

Luiza Pessin

Nilda Martins Sirelli

Aline Lima Tavares

Irvina Leite de Sampaio e Laéria Fontenele

Maurício Eugênio Maliska

Alexandre Fernandes Corrêa

Ingrid Mara Cruz Klinkby E Paulo José Carvalho Da Silva

Yvisson Gomes Dos Santos

Alexandre Fernandes Corrêa

Hevellyn Corrêa e Maria Cristina Poli

Alessandra Affortunati Martins Parente

Anna Hartmann Cavalcanti

Márcio Ramos Ferreira e Sônia Alberti


Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:19
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:20
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:20
Ċ
Bruno Carvalho,
16 de out de 2016 12:20