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Revista v. 12, n. 01

É com muita alegria que apresentamos o mais novo número de nossa revista, que já está no seu décimo segundo ano de edição. Contamos com artigos que mantém  nossa tradição de articulação entre diversas áreas, com destaque para a psicanálise, bem como para o entrelaçamento entre subjetividade e cultura. Apresentaremos cada um deles, convidando a todos para leitura.

No artigo “A experiência da prisão na perspectiva do trágico e do barroco” Patricia Schaefer e Francisco Ramos de Farias abordam os efeitos do confinamento na subjetividade e o paradoxo da experiência da prisão, na perspectiva do trágico e do barroco. A prisão é uma experiência singular e radical, levando o sujeito a seu limite, na medida em que está confrontado a uma situação da qual não tem como sair por sua vontade. Essa mudança brusca de vida é sentida como violência, como uma experiência traumática, marcada pelo isolamento, a opressão, a exclusão da sociedade para viver como estrangeiro, como se estivesse em um país distante. Contudo, há uma dimensão paradoxal, pois diante do horror há a convocação por criar um mundo novo, tanto na prisão como dentro de si. Aqui a memória é mobilizada, e sua construção surge como estratégia de resistência e criação, frente à violência da prisão e ao risco permanente de aniquilamento.

Em conformidade com a lógica do paradoxo, “Entre o belo e o feio: das unheimliche como princípio estético em Freud”, de Alex Wagner Leal Magalhães, analisa os impacto das ideias de Freud contidas no texto “O estranho” (1919) sobre a estética, salientando o quanto esta última esteve com seu raio de análise primordialmente embasada em uma dicotomia radical entre o belo e o feio, entre o bem e o mal, baseando-se na lógica da contradição, em que opostos de anulam mutuamente. Neste ponto, Freud promove uma verdadeira reviravolta na estética ocidental ao defender uma efetiva permuta e interdependência entre o belo e o feio, entre o harmônico e o caos, aproximando o sentimento de estranhamento ao familiar.

Ainda a partir do texto freudiano “O estranho”, no artigo “A alteridade na obra de Clarice Lispector a partir da leitura do conto amor”, Flávia Albergaria Raveli faz a leitura do conto “Amor”, de Clarice Lispector, a partir do conceito psicanalítico de “estranho-familiar”, do qual decorre a discussão sobre a alteridade na tradição psicanalítica. Aqui a psicanálise vai operar como um lugar de escuta da experiência de leitura da obra literária, focando a relação entre obra e leitor.

Continuando a riquíssima interlocução com a arte, no artigo “Freud e a literatura”, Marcelo Gonçalves Campos e Julio Eduardo de Castro apresentam o diálogo que  Freud estabeleceu com a literatura em seus escritos psicanalíticos, ressaltando que a interlocução deste autor com a arte literária pode ser notada em três situações: para ilustrar e validar determinado ponto de sua teoria, para compreender algo deste processo de criação artística e para interpretar psicanaliticamente uma obra específica. A conexão da psicanálise com a literatura, inaugurada e mantida por Freud ao longo de sua obra, tem se sustentado ainda hoje como um campo frutífero de pesquisa, tal qual nossa revista vem demonstrando pela profusão de trabalhos que recebemos articulando esses campos.

O artigo “A eternidade não tem limites: Schereber, a escrita e o nome”, de Cláudia Aparecida de Oliveira Leite, trata da minuciosa leitura que Freud realiza do texto Memórias de um doente de nervos, de Daniel Paul Schreber, focalizando seu caráter testemunhal. Freud dá um lugar central aos escritos de Schreber, decifrando sua escrita, ressaltando sua singularidade, seu endereçamento e seus efeitos sobre o nome e o corpo. Frente a isso, a autora destaca que tornar público um escrito é dar ao próprio nome os mais diversos destinos, discutindo como os momentos de crise de Schreber coincidiam com as vivências em que ele era convocado a fazer uso de seu nome na intimidade que o nome próprio estabelece com o Nome-do-Pai, valendo-se da via conferida por Lacan no trabalho com a psicose e que encontramos ricamente discutida nesse artigo.

Dando continuidade ao estudo das psicoses, Maria Anita Carneiro Ribeiro e Gilber Vieira Ferreira nos presenteiam com o artigo “Salvador! considerações sobre o mecanismo da paranóia”. Salvador Dalí foi um artista múltiplo, que além de sua maravilhosa obra pictográfica, deixou-nos numerosos escritos. O artigo se baseia em alguns destes escritos e  no trabalho de alguns de seus biógrafos para estudar a contribuição que o "Caso Salvador Dalí" pode dar ao estudo da paranoia, estrutura em que o Nome-do-Pai foi foracluído.

Ainda abordando as estruturas clínicas, Ana Paula Queiroz Bastos discutirá a relação do sujeito com sua fantasia no artigo “A fantasia perversa em um caso de histeria feminina”. Sendo a mãe o primeiro objeto de amor de toda criança, a autora investiga e discute a posição subjetiva da mulher frente à mãe, explorando os conceitos de sexualidade, neurose, e feminilidade na obra de Freud e no ensino de Lacan. Para tanto, indaga, como se dá a escolha da neurose e a construção da fantasia na histeria feminina.

Continuando esse percurso pela histeria, o artigo “Do mal-estar moderno ao pós-moderno: reflexos sob a histeria”, de Marina Scalco Duarte e Daniela Scheinkman Chatelard, salienta o caráter de máscara do desejo que o sintoma assume nessa estrutura, articulando ao discurso social de nossos tempos. Trabalhando pelo viés da cultura do narcisismo, e do imperativo do gozo as autoras discutem sobre a toxicomania, anorexia, depressão e síndrome do pânico em suas relações com a histeria, considerando os efeitos do contexto social atual como produtor destes novos tipos de máscaras encarnados pela histérica.

Sobre a clínica, Sandra Chiabi, escreve o artigo “A angústia na clínica psicanalítica e na psiquiatria”. A autora busca o tema da angústia em alguns textos de Freud e Lacan, visando localizar o conceito na psiquiatria contemporânea. Para isso utiliza a Classificação Internacional de Doenças, conhecida pela sigla CID, atualmente em sua décima versão, e também o Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM), publicado pela American Psychiatric.  Afirma a importância da clínica psiquiátrica, mas questiona se, em algumas situações clínicas específicas, não seria mais produtivo a psicanálise e a psiquiatria trabalharem juntas, de forma que a psicanálise possa ostentar uma função no contexto contemporâneo da psicopatologia como aquela que trabalha com a singularidade do sofrimento psíquico.

Para a psicanálise, subjetividade e cultura não são dimensões apartadas, se constituem mutuamente, e é esse embricamento que o artigo “O corpo a serviço de um ideal: subjetividade e cultura”, de Denise Lima Tinoco e Nilda Martins Sirelli, vem nos apresentar. O corpo tem sido investido como mais uma mercadoria a ser consumida, através das diversas intervenções e procedimentos possíveis de serem adquiridos na busca de um corpo ideal. O discurso da cultura não é sem efeitos no corpo, porém, esses efeitos estão intimamente ligados a nossa constituição psíquica, pensada no artigo pela visada freudiana.  Parte da questão: por que os ideais propostos por uma cultura, via circulação de bens e mercadorias, ganham tamanha força tanto subjetivamente quanto em nível de massas?

No artigo “Psicanálise e direito: da urgência de um novo olhar sobre os personagens familiares e seus conflitos”, Juliana Lima Barroso Guerra e Betty Bernardo Fuks observam que na atualidade tem havido uma crescente normatização da vida privada, sobretudo no que diz respeito aos comportamentos e modelos familiares, pois cada vez mais um saber externo à família, se impõe a ela, visando regular suas relações. Consequentemente, sobreleva-se o Poder Judiciário para pacificação dos conflitos decorrentes da inadequação entre as condutas e os discursos normativos, o que se mostra preocupante, pois os juristas nem sempre detém a aptidão necessária para identificar as verdadeiras demandas presentes nas entrelinhas dos litígios jurídicos de família. Neste trabalho as autoras propõem uma nova forma de compreensão das estruturas familiares e da cultura de litigiosidade judicial a partir do diálogo interdisciplinar entre o Direito e a Psicanálise.

Fernanda Marmagnanis no texto, “A relação mãe-bebê na instalação da obesidade e a cirurgia bariátrica: um enfoque psicanalítico” discute o aparecimento da obesidade como epidemia mundial, e o consequente surgimento e utilização crescente da cirurgia bariátrica. A utilização dessa cirurgia nos mostra como a sociedade atual se articula com as ditas novas formas de psicopatologia, como os transtornos alimentares, impondo um ideal, que se reflete tanto no mal-estar do sujeito contemporâneo como na busca de soluções rápidas para o seu alívio. Nesse contexto, a autora parte da relação do bebê com sua mãe para pensar a instalação da obesidade em um sujeito.

Em a “A posição do falo e a diferença sexual na adolescência contemporânea”, Leonardo Danziato discute quais os efeitos discursivos do mundo contemporâneo, que estabelece  uma lógica da diversidade sexual e uma reivindicação do direito ao gozo bastante distintas das de outrora. Com isso, traz a tona algumas problemáticas avultadas na contemporaneidade, especialmente as que sugerem, a seu ver,  uma falência do balizamento da diferença sexual e do falo para o sujeito.

Fechando os artigos dessa edição apresentamos o texto “Nouveaux paradigmes”, de Luiz Eduardo Prado de Oliveira. O autor esclarece que durante o século XIX a interpretação dos sonhos começa a ser um tema de destaque, trazendo diferentes paradigmas sobre a temática. Em Freud o sonho se torna um dos paradigmas da psicanálise, ganhando ainda nova leitura com Lacan e a ênfase dada à linguagem. Porém, longe de ser uma questão resolvida, continua sendo fonte de questões e de possibilidades de articulação e pesquisa.

Por fim, encerramos nossa edição com chave de ouro, com a resenha “Habitar nos avessos de si”, de Iza Maria de Oliveira. A autora resenha o livro “O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise”, de Tânia Rivera, salientando ser um trabalho cujo fio, deste o início até o final, conjuga rigor e sensibilidade. Dois recortes serão destacados na obra de Tânia Rivera: as apresentações da autora sobre a fita de Moebius e as referências ao enunciado freudiano “o eu não é o senhor em sua própria casa”, donde desfaz a lógica linear que divide dentro e fora, e interroga por que Freud remete a uma referência espacial/arquitetônica para falar do eu em sua relação com o inconsciente, nos fazendo vislumbrar os avessos bordeados pela obra.

A todos, uma ótima leitura!

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Patricia Schaefer e Francisco Ramos de Farias

Alex Wagner Leal Magalhães

Flávia Albergaria Raveli

Marcelo Gonçalves Campos e Julio Eduardo de Castro

Cláudia Aparecida de Oliveira Leite

Maria Anita Carneiro Ribeiro e Gilber Vieira Ferreira

Ana Paula Queiroz Bastos

Marina Scalco Duarte e Daniela Scheinkman Chatelard

Sandra Chiabi

Denise Lima Tinoco e Nilda Martins Sirelli

Juliana Lima Barroso Guerra e Betty Bernardo Fuks

Fernanda Marmagnanis

Leonardo Danziato

Luiz Eduardo Prado de Oliveira

Iza Maria de Oliveira


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Bruno Carvalho,
11 de out de 2016 22:57
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11 de out de 2016 23:04
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