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Revista v. 12, n. 02

Chegamos ao segundo número da décima segunda edição de nossa revista, e presenteamos nossos leitores com uma edição recheada de belos artigos!

Abrimos nossa edição com o artigo “A psicanálise e a construção de uma nação moderna: A apropriação médico-higienista”, de Luciana Cavalcante Torquato, que discute a entrada na psicanálise no Brasil atrelada a um discurso médico-higienista, incompatível com a proposta freudiana. Por essa vertente, a psicanálise surge atrelada às demandas correntes da intelligentsia nacional em seu esforço de construção do projeto de nação que ecoava no país desde o final do século XIX. Tal contexto esteve profundamente marcado pela discussão de projetos para a nação brasileira com o intuito de modernização do Brasil, erguendo-o à condição de país civilizado. Na fileira desse projeto de modernização, a medicina psiquiátrica apresenta-se como uma das vias de incorporação das ideias freudianas para o aperfeiçoamento de sua prática clínica, diagnóstica e nosográfica, empreendendo uma leitura reformista e universalizante da psicanálise. Contudo, Freud nos aponta a dimensão da castração como o pilar de sustentação da subjetividade e da psicanálise, o que evidencia a impossibilidade de se pensar e utilizar a psicanálise como uma pedagogia normatizante e universalista.

Na sociedade contemporânea percebemos o retorno do discurso higienista sobre a subjetividade, o que tem se evidenciado, por exemplo, nas políticas públicas voltadas a dependência química. Nessa perspectiva, Marcela Serrat Freire discute, no artigo “O alienado e o alienista: aliena-se uma questão” sobre a política de atenção ao usuário de álcool e outras drogas levando em conta a obra O Alienista de Machado de Assis e a história de Louis Althusser, associando internação compulsória ao destino da impronúncia como uma sentença definitiva, algo que encarcera o sujeito, sem ao menos dar-lhe o direito à resposta. Aborda em especial a exclusão que tem recaído sobre o usuário de drogas, em suas múltiplas vertentes: encarceramento, longas internações, e mesmo a lógica do afastamento como forma de resolução à questão do uso e abuso de substâncias psicoativas.

A medicalização cada vez mais indicada para o mal estar da alma, segue na vertente da normatização. Renata Andrade e Roberto Calazans tratam do tema no artigo “Medicalização e terceira idade: a questão da depressão”. O texto discute o processo medicalizante que tem se instalado na sociedade atual, o qual assume como de natureza biológica toda e qualquer queixa e torna irrelevante as vivências psíquicas e a história do sujeito. Esse processo se expande por todos os momentos do existir, marcando sua presença de forma característica ao se tratar da terceira idade, quando o sujeito tem uma bagagem de sentimentos e perdas maiores e requer maior elaboração de um trabalho de luto. Esses fatores, quando vinculados à depressão, podem ser tratados a partir de dois pontos de vista: o medicalizante, que enxerga o ser apenas enquanto paciente, cujo apoio praticamente exclusivo em medicamentos objetivando a remissão de um sintoma é evidente. Ou ainda, o ponto de vista psicanalítico, em que sujeito está em primeiro lugar, baseando-se na noção de sujeito e evidenciando seus desejos, dificuldades e conflitos.

Ainda discutindo o entrecruzamento entre a subjetividade e um discurso que se pretende válido para todos, apresentamos o artigo “Sobre a formação do psicanalista: entre o movimento psicanalítico e a institucionalização da psicanálise” de Joana Souza. O desejo de saber de Freud tornou-se o ponto de partida para a construção do campo psicanalítico, estando esse campo ligado à dimensão da experiência singular vivida por seu criador. Do mesmo modo, só há um analista se ali vigora um desejo, nesse sentido, a autora discute a questão da institucionalização da psicanálise e os impasses que se colocam à questão da formação do analista a partir do momento em que os critérios estabelecidos para sua transmissão podem assumir um caráter de fixidez.

Também tratando da transmissão da psicanálise, Vitor Ferrari, no artigo Le sujet entre vérité et réalité faz uma apresentação dos conceitos de realidade e de verdade, salientando a fecundidade de sua não coincidência para a psicanálise. Para o sujeito é impossível o acesso a uma realidade puramente objetiva e empírica. Tal distinção é prenhe de conseqüências para pensarmos a ciência, assim como o próprio lugar da psicanálise na Universidade.

Seguindo na articulação entre subjetividade e cultura, o artigo “Perspectivas sobre memória social” de Daniele Achilles Dutra da Rosa, aborda a memória como instrumento de poder. Apresenta a concepção de memória social essencialmente caracterizada na obra de Maurice Halbwachs, Pierre Nora e Andreas Huyssen, utilizando, contudo, também outros pensadores, como Foucault, para complementar tais reflexões. Em Halbwachs aborda a memória social como estabelecida a partir das referências e lembranças que constituem uma memória coletiva própria ao grupo. Em Nora enfatiza a dialética entre a memória e a história, ressaltando o conceito de “lugares de memória”, e em Huyssen destaca as possibilidades criativas da memória. Conclui concebendo a memória como produção de subjetividade, que é permeada por relações de poder, como ressalta Foucault.

Consagrando a tradição de nossa revista, de articular psicanálise e arte, apresentamos ainda uma série de artigos que abordam a literatura e a pintura como uma forma de discutir a subjetividade e a relação com seu sofrimento.

O artigo “Redesenhando o menino: o real, o imaginário e o simbólico em Clarice Lispector”, de Humberto Moacir de Oliveira, discute o processo de subjetivação em suas vertentes real, simbólica e imaginária a partir do conto “Menino a bico de pena”, da escritora e jornalista Clarice Lispector. Os registros sugeridos por Lacan para pensarmos o sujeito (real, simbólico e imaginário) serão destacados e analisados a partir de três elementos fundamentais do conto: o menino, o retrato de O Menino e a mãe. A análise do conto encontra-se impregnada pela arte da escritora que revela sutilmente os sacrifícios e as possibilidades envolvidas na passagem de uma pura existência ao que ela chama de vida.

O artigo de Mariana Rodrigues Festucci Ferreira, “Entre a arte e a psicanálise: a melancolia em Edvard Munch”, faz uma interlocução entre os campos da arte e da psicanálise discutindo o pathos a partir da “dor de existir” em Edvard Munch. É sabido que a “dor de existir” está presente em todas as estruturas psíquicas, mas ela é entoada em potência máxima pelo melancólico. Em Edvard Munch, “a dor de existir” é o componente fermentador da sua própria vida, e de sua expressão artística.

Em “Escritores criativos e a passagem ao ato suicida”, de Lenita Vilafãne Gomes Bentes a autora aborda alguns escritores, em especial Stefan Zweig e Virgínia Woolf, para considerar os limites e a eficácia da função da escrita. Não há escritores suicidas, mas escritores que se suicidam. Não tendo mais o que esperar da linguagem, o sujeito perde o enquadramento fantasmático e lança-se fora dos muros da vida, donde diversos autores produzem uma “escrita terminal”, uma espécie de carta do suicida, último apelo à linguagem. Assim, uma vez ultrapassados os limites impostos pela escrita, rompem definitivamente com o laço com o Outro.


Na mesma direção, o artigo “Entre a vida e a obra: o silêncio de Rimbaud”, de Marcelo Gonçalves Campos empreende uma leitura psicanalítica do entrelaçamento da vida e da obra do poeta francês Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, e investiga seu silenciamento literário, que abandonou a poesia aos dezenove anos de idade. O autor se vale de dados da biografia de Rimbaud e de sua produção escrita (literária e epistolar), articulando-os às formulações freudianas sobre a fuga e a negação, e à contribuição de alguns autores que se debruçaram sobre a questão da inter-relação ‘vida – obra literária’, no intuito de compreender as particularidades e desdobramentos da renúncia literária de Rimbaud.

Carla Cervera Sei nos apresenta em seu belo artigo, “A escrita como marca do sujeito”, um recorte da obra literária “Infância”, de Graciliano Ramos – obra na qual o autor conta das suas primeiras incursões pela escrita, marcadas pela fala violenta do pai – , discutindo a partir dela o lugar que a aprendizagem da escrita pode ter para o sujeito. Desde a psicanálise, aprender a escrever não se trata apenas de aprender uma técnica que faz corresponder um som a um signo. Há um caminho subjetivo a se percorrer. O sujeito é constituído a partir das marcas psíquicas nele inscritas e é a partir destas marcas que ele irá marcar o papel. Graciliano, ao fazer uso da escrita como uma linguagem, pode expressar suas angústias, suas fantasias, seus personagens e a si mesmo. Pode tramar palavras e compor histórias. Pode habitar o papel, colocar coisas próprias nele, pode, enfim, deixar sua marca.

O artigo “Imagem a perder de vista: Algumas contribuições acerca da noção de imagem enquanto representação”, de Ariane Santellano de Freitas e Luís Fernando Lofrano de Oliveira discute de que modo a noção de imagem tem sido habitualmente associada às questões visuais, havendo a retirada de algumas de suas características peculiares de cena, a saber, o seu processo de representação e sua formação inconsciente. O estudo parte da construção da imagem de acordo com a obra do crítico de arte Didi-Huberman, trazendo à baila o lugar do olhar nesse ensejo; avançando até Freud, no qual o entendimento de imagem tem estreita ligação com o inconsciente, bem como um conceito enquanto representação é desenvolvido. Por fim, a referência à fala de um sujeito cego acerca do belo propicia um enlace com discussão teórica proposta, vislumbrando novas possibilidades de construção da imagem, pois a suspensão do visual possibilita novos contornos aos objetos que se apresentam.

No artigo intitulado “Os mecanismo psíquicos do ciúme da psicanálise”, Drielle Vieira e Nilda Sirelli se valem do complexo de Édipo e da teoria do narcisismo proposta por Freud para discutir os mecanismos psíquicos em jogo na constituição do ciúme. Pelo complexo de Édipo as autoras apontam a disputa pelo objeto de amor, que instaura a rivalidade com o suposto par-rival, donde o sujeito supõe que outro tem o que lhe falta, e logo, o que o seu objeto de amor deseja, lançando no seu par-rival seu próprio Ideal. Mecanismo de tamponamento da falta, pois o sujeito supõe uma impotência, um infortúnio individual, lançando no seu rival a suposta completude que lhe falta, quando na verdade o que está em jogo é o impossível, pois, o objeto que satisfaria está perdido para todos, como condição do desejo.

Só há desejo se há falta, condição ressaltada no artigo “O desejo e a lei”, de Juliana Bartijotto. A autora evidencia, através do ensino de Lacan, que para psicanálise o desejo só existe a partir da inscrição da falta e da Lei no simbólico, o que equivale dizer que o desejo não existe sem a Lei. A autora aponta que tal enunciado é sustentado pela concepção lógica do grafo do desejo e dos três tempos do Édipo, no qual se evidencia que a verdadeira função do Pai simbólico é unir e, não, opor o desejo à Lei. No entanto, há um impasse em que o sujeito permanece dividido entre o gozo e o desejo. Pois, o sujeito dividido, ao mesmo tempo em que almeja um gozo, não o quer, pois, para sustentá-lo é necessário ocupar o lugar de objeto do Outro e a fixação nesse lugar implica o desaparecimento do sujeito desejante. Paradoxo necessariamente implicado na constituição subjetiva.

Assim, tal como o ano novinho em folha que se inicia, lançamos esse novo número convidando a todos a se deliciarem com essa edição saído forno ‘agorinha’. Boa leitura!

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Luciana Cavalcante Torquato

Marcela Serrat Freire

Renata Andrade e Roberto Calazans

Joana Souza

Vitor Ferrari

Daniele Achilles Dutra da Rosa

Humberto Moacir de Oliveira

Mariana Rodrigues Festucci Ferreira

Lenita Vilafãne Gomes Bentes

Marcelo Gonçalves Campos

Carla Cervera Sei

Ariane Santellano de Freitas e Luís Fernando Lofrano de Oliveira

Drielle Neves Vieira e Nilda Martins Sirelli

Juliana Bartijotto


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Bruno Carvalho,
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