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Revista v. 13, n. 01

Estamos em nosso décimo terceiro aniversário, e é com muita alegria que presenteamos nossos leitores com uma bela edição, composta por artigos que certamente contribuirão sobremaneira na nossa busca de saber.

Abrimos nossa edição com um belíssimo artigo, que aborda com muita propriedade e delicadeza o tema da violência contra a mulher, e sua responsabilidade, ou atividade, na manutenção de uma posição passiva diante do agressor, responsabilidade que não exclui a herança patriarcal, contudo, ela não determina inteiramente um sujeito, embora dela se valia para constituição de sua fantasia. A autora Paula Dias Moreira Penna, intitula seu artigo “Te dou meus olhos”: considerações sobre a violência doméstica contra a mulher numa perspectiva psicanalítica. Paula parte do filme “Te dou meus olhos”, gravado na Espanha em 2003, que mostra a dinâmica da violência doméstica contra a mulher de forma realista e incisiva, partindo da questão: Porque Pilar, personagem principal que sofre agressões cotidianamente, escolhe permanecer com um homem que a humilha, agride e violenta, assim como o seu pai fazia com sua mãe? Utilizando como operadores de leitura a elaboração freudiana da noção de masoquismo e das concepções sobre atividade/passividade no feminino, a autora evidencia a posição fantasmática da mulher que é agredida, que mantém uma repetição do modelo de interação familiar transmitido entre gerações. Trata-se de uma transmissão no âmbito do não-dito, não se fundamentando nas palavras e na transmissão direta, mas no desejo do Outro, de forma que a denúncia da violência é uma possibilidade de sustentar-se como sujeito desejante, saindo da posição de objeto e criando novas modalidades de satisfação pulsional.

O artigo “(Re)cortes: O discurso sobre a autolesão feminina no Tumblr” de Stephanie Cristin Otto e Kátia Alessandra dos Santos, destaca igualmente o modo como a subjetividade da mulher e suas estratégias de lidar com sofrimento são atravessadas pelo discurso vigente na cultura. As autoras fazem uma extensa pesquisa acerca do discurso sobre a autolesão feminina na plataforma blogging Tumblr, plataforma on line de cadastro gratuito que permite aos usuários publicarem textos, imagens, vídeo, áudio e "diálogos", ao mesmo tempo em que é possível "seguir" outros usuários, ver, e comentar seus posts, muitas vezes sendo utilizado como um diário virtual. As ferramentas conceituais utilizadas para discutir o material encontrado são a análise do discurso, e os conceitos psicanalíticos de sintoma e o Acting out. Percebe-se algo comum que perpassa os discursos sobre a autolesão: ela se constitui como uma forma pela qual as pessoas dão conta de uma angústia intolerável, produzida pelo próprio padrão de beleza e as questões que envolvem o corpo, sobretudo feminino, na contemporaneidade, e, antes de ser uma tentativa de suicídio, a autolesão aparece mais como uma forma de demandar a um Outro, de se mostrar a um Outro, enviando uma mensagem, e portanto, denunciando algo do discurso do Outro e lhe fazendo um pedido de ajuda.

Articulando também a temática dos laços que unem o sujeito ao seu clã familiar, e a toda uma herança geracional e cultural, apresentamos o texto “A família e a transmissão psíquica”, de Luciana Jaramillo Caruso de Azevedo, Terezinha Féres-Carneiro e Samuel Lincoln Bezerra Lins. A transmissão que se dá entre gerações é, como sabemos, constitutiva de um sujeito, dada sua importância o artigo apresenta o conceito e os tipos de transmissão psíquica (intergeracional e transgeracional), e discute o papel do segredo (o não dito e o inominável) como uma forma privilegiada de transmissão psíquica que atravessa gerações. O não dito faz sua entrada e se atualiza na vida do sujeito, de forma que o conteúdo transmitido está muito além daquilo que é escolhido e autorizado a ser passado para as gerações vindouras.

Ana Laura Moraes Martinez, em seu artigo “As tramas do nascimento psíquico no conto A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector” ressalva que, para psicanálise o sujeito não surge no ato do nascimento, pois, só podemos falar em psiquismo pelo desejo de um Outro, desejo que coloca em cena a castração, dimensão que possibilita uma invenção de si. Partindo do escrito de Clarice Lispector, “A legião estrangeira”, a autora busca lançar luz sobre o processo de constituição do psiquismo humano. Lispector narra as turbulências que o infante deverá atravessar em seu desenvolvimento para vir a se tornar, de fato, um humano, atravessado pela falta e pela impossibilidade de si fazer um com o semelhante. Esse, evidenciando a alteridade, possibilita ao sujeito se deparar com aquilo que há de mais íntimo: a solidão de ser sujeito.

Valendo-se ainda da obra de Clarice Lispector, Cristina Moreira Marcos nos brinda com seu texto “A escrita da voz em Clarice Lispector: da escrita ao objeto”. A autora ressalta que na obra de Lispector, para além de uma narrativa, somos convocados a falar da lógica de objeto, pois muitas vezes sua escrita nos aponta para uma dimensão visceral, que remete ao gozo e aos seus modos de satisfação, e não a linguagem, tomando um fragmento de seus escritos: “O sentido me vem pela respiração, não em palavras. É um sopro”.

O texto “O que a psicanálise tem a dizer sobre Caravaggio?”, de Bela Malvina Szajdenfisz faz, com base na vida, obra e no contexto em que viveu o pintor italiano Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, uma articulação entre a psicanálise e sua arte. Sendo o artista sujeito do inconsciente, cabe um olhar psicanalítico sobre sua arte e seus efeitos nas telas: a autora aponta traços de uma vida intensa e turbulenta, de um real impossível de simbolização presentes em seus quadros, que antecipam características barrocas de brilhos e excessos contrastantes, seja pelo desafio, pela homossexualidade manifesta, pela transgressão da Lei ou pelos modelos prostitutos representando figuras sagradas. Suas figuras humanas, numa relação contemplativa especular, transmitem uma insatisfação com o mundo e, a um só tempo, um gozo sem limites, pelo qual o artista se coloca em bandejas para o Outro gozar, e, nesse contexto, o artigo aponta que sua pintura traz pistas sobre a possibilidade de ter sido ele um sujeito de estrutura perversa.

Isabela Gonçalves Farias, no artigo “O cinema de Pedro Almodóvar e a imagem-sombra” destaca que sujeitos marginalizados pela sociedade, remetidos à sombra e ao vazio social conseguem ter um lugar de voz e de formação de suas memórias individuais e coletivas em tramas vistas na cinematografia almodovariana, e densamente trabalhadas pela autora. Evidencia assim, que o reconhecimento do individuo é parte fundamental para que este seja trazido à luz nos seios sociais dos quais este pertence, apontando o cinema como um campo fértil para que representações acerca dos sujeitos e novas formas de identificações sociais sejam edificadas e transmitidas através da linguagem estruturada em torno das construções audiovisuais, que lhe são próprias. O cinema pode constituir-se como uma forma de dar voz ao não-dito, ao que é marginalizado em uma cultura, e que não é sem efeitos, pois como já pontuado em nosso editorial, subjetividade e cultura estão em constante e constituinte embricamento.

Tratando de subjetividade e laço social, apresentamos o artigo “Posto, logo existo: interlocuções teóricas entre as novas formas de subjetivação e o narcisismo na contemporaneidade” de Francine Rocha de Freitas e Vânia Fortes de Oliveira. Partindo da significativa virtualização das relações interpessoais no contexto atual, reforçada pelas redes sociais e protagonizada pelo site de relacionamentos Facebook, as autoras discutem o caráter espetacular das relações que ali se estabelecem, reforçando a ideia de que ser e parecer são sinônimos, fazendo emergir o desejo de ser visto por uma platéia virtual que, supostamente, espera assistir à invejável performance do sujeito. Longe de fechar a questão, pretende problematizar os efeitos para a subjetividade desse novo modo de relacionar-se, que exclui o corpo, e ao mesmo tempo instaura uma dependência do olhar do outro para a confirmação de si.

Alessandra Fernandes Carreira, no texto “Enquanto houver Real...”, a partir de Lacan, discute a respeito das demandas contemporâneas de felicidade e completude, assim como sobre as ofertas dadas pelo capitalismo de objetos que prometem satisfação, e se oferessem como um bem para o sujeito. Contudo, não há continuidade entre o bem e o mal, sendo o vazio tanto aquilo que é temido e evitado pelo sujeito, quanto aquilo que é necessário para a manutenção do desejo. Nesse contexto, a psicanálise, sustentada no desejo do analista, faz uma recusa ao atendimento dessas demandas, permitindo reavivar a falta necessária à própria condição do sujeito. Na contramão desse impertativo cultural de satisfação pronta e imediata, a psicanaálise convoca o sujeito a se haver com seu desejo, como única estratégia possível diante da angústia do gozo desmedido.

O chiste é uma importante forma de lida com o sofrimento, Ernesto Pacheco Richter e Alberto Shibaki Souza salientam que tal mecanismo tem sido muitas vezes pouco explorado pelos psicanalistas, em contraponto com as demais formações do inconsciente, como podemos ler no artigo “Chistes: do soslaio a um olhar psicanalítico”. Os autores remontam importantes textos freudianos sobre o tema, tomando suas principais balizas, para em seguida apresentar uma analogia entre o processo de elaboração dos chistes e o civilizatório, destacando sua relação com o inconsciente, bem como seu inerente caráter social. Pelo chiste o que é inconsciente em um sujeito ou em uma cultura pode ser trazido a luz, não pelo mal estar do sintoma, ou do ato falho, mas pelo riso, retomando e recolocando aquilo que é da ordem do não dito.

Alexandre Fernandes Corrêa e Adriana Cajado Costa, seguindo a orientação de Lacan de não recuar diante das psicoses, abordam a paranoia, em especial sua relação com a perseguição e o ódio, no artigo “Do diabólico ao simbólico: magia, amor, loucura e morte”. Partem das questões: Sendo o mal estar no laço social decorrente da renúncia pulsional, como o mal-estar se apresenta na psicose, em especial, na paranoia? No laço do paranoico com o Outro, qual é a fonte de mal-estar evidenciada no objeto persecutório, lugar de exteriorização e figuração do ódio? Os autores percorrem a história cultural dos significantes sobre o mal, propondo analisar a relação do paranoico com o Outro. Tomam como foco a função do mal-estar e do ódio na lógica do delírio, e recorrem a trechos das Memórias de Schreber, como forma de encenar o mal-estar na paranoia.

Tendo ainda como operador a noção de estruturas clínicas, o artigo “Considerações psicanalíticas sobre o fetichismo de gênero no travesti”, de Francisco Lamartine Guedes Pinheiro e Leônia Cavalcante Teixeira, discutem a perversão no travestismo. Os autores destacam o lugar do fetichismo, e mais especificamente do que eles designam de fetichismo de gênero, na organização de homens que vivem travestidos de mulher. Haveria uma correlação entre o posicionamento identificatório do travesti com os significantes fálicos: pênis, roupa e nome. O travestismo seria o instrumento de fabricação e promoção do modo de funcionamento da subjetividade travesti e englobaria o desfile desses significantes fetiches (pênis, roupa e nome), que gera um ritual, popularmente chamado de “se montar”. Há a produção de uma mulher com pênis, negação da castração via fetichismo, modo pelo qual se estrutura a essa sexualidade.

Articulando memória social e psicanálise, o texto “Transdiciplinaridade: relações fecundas entre psicanálise e memória social”, de Rejane Moura e Denise Maurano, discute acerca das contribuições fecundas que podem favorecer o campo discursivo e prático da Saúde Mental, se a ele se agregar tanto o instrumental conceitual da psicanálise, em sua forma própria de pensar o singular e o social, não como antinomias, mas como polaridades paradoxais inerentes à constituição subjetiva. Destacando a função da transdisciplinaridade, o texto argumenta que existe uma dimensão ética e política na escuta que visa propiciar que o sujeito dê andamento às suas articulações significantes, reproduzindo-as ou modificando-as, favorecendo ou não a ruptura de identificações imaginárias congeladas, que muitas vezes atribuem lugares excludentes e marginais a determinadas classes de sujeitos, lugar de resto social que comumente lhes são atribuídos. Uma reflexão acerca da memória social que leve em consideração tais aspectos, privilegia a dinâmica processual da construção da memória, em detrimento de pensá-la como uma arquivo fechado e instituído de uma vez por todas.

Fechamos nossa edição com o artigo de Eliane Carvalho Dalmácio, “Determinantes sociais e sofrimento psíquico: uma resposta da psicanálise”, que discute também com a questão do social, criticando leituras patologizantes de temas que dizem respeito ao humano, sobre as vulnerabilidades em saúde mental e indicando de que modo tais leituras acabam por subsidiar políticas públicas que operam de forma invasiva e danosa para os sujeitos e para o campo social. Destacando a função do inconsciente e seu caráter linguageiro o texto privilegia a importância da fala e a pertinência da escuta psicanalítica no contexto da elaboração das políticas públicas no campo da saúde mental.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Paula Dias Moreira Penna

Stephanie Cristin Otto e Kátia Alexsandra dos Santos

Luciana De Azevedo, Terezinha Féres Carneiro e Samuel Lins

Ana Laura Moraes Martinez

Cristina Moreira Marcos

Bela Malvina Szajdenfisz

Isabela Gonçalves Farias

Francine Rocha de Freitas e Vânia Fortes de Oliveira

Alessandra Fernandes Carreira

Ernesto Pacheco Richter e Alberto Shibaki Souza

Alexandre Fernandes Corrêa e Adriana Cajado Costa

Francisco Lamartine Guedes Pinheiro e Leônia Cavalcante Teixeira

Rejane De Moura Nunes e Denise Maurano

Eliane Carvalho Dalmácio


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Bruno Carvalho,
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