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Revista v. 13, n. 02

Chegamos a mais uma edição de Psicanálise e barroco em revista, e é com grande prazer que apresentamos os artigos que a compõem. Os artigos versam uma temática cara e sempre presente em nossa revista: a articulação entre subjetividade e cultura. Como forma de costurar esses dois campos partimos da memória e mais, da memória como lugar de produção de resistências e permanente atividade criativa.

A resistência é aqui concebida não apenas como um ato de revolução ou ruptura, mas como um ato inventivo, que se faz sempre que nos apropriamos das regras e costumes vigentes, mas não passivamente, e sim a uma maneira própria e criativa que os subverte, dando origem a algo até então inédito.

A memória perpassa todas as construções humanas, logo, todas as instituições se originam, se estruturam e se mantém a partir de determinadas construções sociais de memória. O artigo “Sistema prisional, memória e relação de poder”, de Vivian Freitas De Mell, apresenta o sistema penitenciário brasileiro, como uma instituição social com viés, predominantemente, conservador, disciplinador e punitivo e a memória inserida nas relações de poder como instrumento de repressão e/ou resistência. O estudo respalda seu debate teórico a partir de Erving Goffman, Michel Foucault, Michael Pollak e da legislação específica do âmbito da execução pena, sendo a Lei de Execuções Penais.

Discutir as relações de poder e a memória que perpassam a organização penitenciaria no Brasil, é também liberar vias de repressão, e favorecer estratégias de resistência, e nesse sentido, o artigo “O estranhamento no sistema carcerário da colônia correccional do Porto das Palmas”, de Ana Luiza Castro do Amaral, versa sobre o primeiro presídio de segurança máxima do estado de São Paulo criado em 1908 para abrigar os condenados pelo Decreto nº 145, de 1893, vulgarmente conhecida como Lei contra vadios, vagabundos e capoeiras. Era destinado a correção dos indivíduos que não optassem por uma vida regrada pelas normas estabelecidas, sendo os vadios aqueles que afrontavam a moral e os bons costumes com sua miséria e vícios, enquanto os capoeiras eram os que com sua rebeldia representavam uma ameaça à ordem pública. Retomando os escritos de Freud sobre o estranho, o autor nos relembra que o “eu”, enquanto uma unidade identitária é construído em oposição ao “não eu”, ou seja, aquilo que não reconheço como parte de mim, é logo excluído, segregado do meu eu, e se torna uma fonte para a qual posso dirigir minha agressividade. Anular a diferença, o estranho, o vagabundo que há em cada um de nós, é também gerar rejeição e recusa, de forma que essas divisões e segregações estão intimamente ligadas com a formação de grupos sociais e de coletivos identificatórios. O sistema prisional aparece assim como lugar de segregação e exclusão, e não de reabilitação, resistência ou ampliação de possibilidades.

Ainda versando sobre o sistema carcerário, Sebastião Cesar Meirelles Sant’Anna, no artigo “Transexualidade, cárcere e direitos: a identidade de gênero em questão”, discute a questão do transexual privado de sua liberdade, e a negação por parte do sistema carcerário em acolher sua identidade de gênero. Esses sujeitos precisam se adequar às normas institucionais estabelecidas, que os tratam a partir do seu sexo biológico, proibindo que mantenham seus caracteres sexuais secundários focados no sexo oposto, assim há o não reconhecimento de seus parceiros sexuais, negando-lhes visitas íntimas e direitos concedidos a casais heterossexuais, assim como a manutenção dos cabelos longos dentre muitas outras privações. Esse ensaio tem como mote os parâmetros de acolhimento LGBT em privação de liberdade, o que o leva a discutir a transexualidade e a formação de gênero e orientação sexual a partir da subjetividade e da cultura que acolhe cada sujeito, e não de sua condição anatômica.

A sexualidade como um lugar de construção social, implica sempre em uma ação inventiva, nesse sentido, O artigo “Mulher, tráfico de drogas e memória: entre a submissão e a resistência”, de Fernanda Santos Curcio e Lobélia da Silva Faceira trata do fenômeno da inserção da mulher no tráfico de drogas pela perspectiva do gênero, evidenciando que esta ação ilegal assume uma dupla estratégia: como reprodução de uma memória de sujeição da mulher ao homem; ou, como uma memória criativa que se utiliza deste crime para resistir à posição de subalternidade que a mulher ocupa ao longo da história, se valendo do tráfico como uma estratégia inventiva.

Ainda partindo do lugar conferido a mulher no discurso social, Vanessa Ferreira Gomes da Silva, no texto “Mulheres iguaçuanas: entre o jurídico e o social” aborda o conceito de violência conjugal, e faz uma discussão sobre a judicialização nas relações sociais, utilizando reflexões de Bourdieu, e Debert sobre o poder judiciário e os movimentos sociais, para analisar as políticas públicas e sua contribuição para a garantia de direitos avaliando o perfil das estruturas da rede de atendimento, segundo dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais de 2013 (IBGE) e dados institucionais fornecidos pela Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense para combater a violência contra a mulher no município. O Estado e suas políticas de atendimento à mulher poderiam ser uma via importantíssima de resistência, empoderamento e criação de novos lugares para a mulher na cultura, de forma que é essencial pensar e rever essa estrutura.

“Sons e afeto: trilhas para a produção de novas memórias na clínica da musicoterapia”, de Adhara Pedrosa e Jô Gondar, também partem de uma experiência no campo da saúde pública, mas especificamente, da saúde mental, contudo, partindo da musicoterapia como estratégia de intervenção. Diante de experiências traumáticas de dor, a sonoridade aparece como uma importante via de construção de sentidos e de novas memórias para estas experiências. Propõe-se a existência de uma memória não-representacional, de ordem corporal, caracterizada como fundamento inicial para a produção de memórias e de grandes mudanças subjetivas.

Ainda pensando nos dispositivos de saúde e políticas públicas, Rejane de Moura Nunes e Denise Maurano no artigo “A escuta como estratégia de resistência política”, apontam a escuta psicanalítica como uma importante estratégia de resistência inventiva diante dos discursos universalizantes que muitas vezes se impõem. Dar a um sujeito a possibilidade de se escutar e se responsabilizar pelo seu modo de produção de vida, é uma intervenção política, e prenhe de efeitos na cultura.

Partindo da escuta analítica como estratégia de resistência, o artigo “A medicalização do mal-estar: a escuta psicanalítica como um modo de resistência”, de Mylena Perez e Nilda Martins Sirelli, analisa a teoria freudiana sobre a constituição do psiquismo, situando o lugar do outro como ponto de origem do aparelho psíquico e, posteriormente, apresenta uma visão sociológica da pós-modernidade e suas principais características, para a partir daí travar um debate sobre a medicalização do sujeito pós-moderno como tentativa de calar o mal-estar que lhe é constituinte. A escuta psicanalítica surge como lugar de oposição e resistência à tentativa de calar o sujeito, e logo, as denúncias que ele pode fazer ao campo da cultura com o seu sofrimento.

Luis Vinicius do Nascimento e Denise Maurano, no artigo “O belo desejo da psicanálise” traçam uma relação entre a questão do belo e do desejo a partir da ética da psicanálise. Ao considerar que a ética da psicanálise convoca ao comparecimento da causa do trauma, então é necessário recorrer ao véu do belo para que esta posição ética seja sustentável. O belo é aquilo que vela o inominável do desejo, a falta de objeto. Freud e Lacan localizam o belo, não como fuga, mas como participe da irrepresentabilidade da morte, uma forma de expressá-la. Assim, o belo também configura-se como uma forma se resistência frente ao horror da condição traumática e da barbárie.

Referindo-se também a dimensão do trauma, o artigo “Pequenas memórias e o trabalho do trauma”, Sonia C. de S. F. M. Maia e Jô Gondar partem do referencial psicanalítico para articular o termo pequenas memórias com a categoria do trauma. Privilegia assim, dentro da psicanálise, a ideia do fragmentário e a memória fora das representações, para tal, parte especialmente dos estudos de Sandór Ferenczi, e de sua articulação com Walter Benjamin, principalmente no que toca seu posicionamento frente às catástrofes e aos restos e fragmentos por ela deixados.

Passamos da realidade fragmentada do trauma, para os fragmentos que constituem a imagem cinematográfica. O ensaio “Hollywood e sua metamemória cinematográfica” de Isabela Gonçalves Farias evidencia que as impressões das imagens capturadas, estáticas pela fotografia, ou em movimento no cinema, formarão um conjunto, histórico, representativo, interpretativo, narrativo e imaginário acerca dos fatos ocorridos, que surgirão, de alguma forma, retratados por lentes óticas e olhares, com o intuito de capturar da realidade, um de vários arranjos e montagens imagéticas, para sustentar determinada versão da história. As imagens, com seus recortes, tem o poder de levar significações a acontecimentos, e produzir uma determinada temporalidade classificada por nós de maneira cronológica em passado, presente e futuro. De forma que o virtual da corpo, tempo e vida constituindo uma determinada realidade.

Se o cinema tem o poder de fazer viver uma realidade, o artigo “Remakes cinematográficos: a violência em uma cultura da cópia no século XXI” de Johanna Gondar Hildenbrand, analisa a exacerbação de uma violência estética na prática dos remakes e discute o consumo de imagens violentamente impostas no que Andreas Huyssen chamou de “cultura da cópia”, investigando as consequências que sua imposição, através da imagem, traz para a construção de nossa memória.

Se a exposição a violência é uma questão contemporânea, a aceleração do tempo também o é. O artigo “Rememoração produtiva ou criativa?: reflexões sobre as interfaces entre memória, criação e aceleração temporal” de Renée Louise Gisele da Silva Maia, aponta que a aceleração do tempo vivida pelas sociedades ocidentais contemporâneas impõem uma condição paradoxal à relação entre tempo e memória. Para discutir a articulação entre velocidade, rememoração e criação, o autor dialoga com Andreas Huyssen, com a filosofia intuicionista de Henri Bergson, e os posicionamentos de Baudelaire.

Fechamos nossa edição com o artigo “O desenvolvimento entre a intuição e a inteligência: uma breve captura do que há de político no pensamento de Bergson” de Pedro Augusto Boal Costa Gomes, defende uma perspectiva política para o pensamento de Henri Bergson. O autor aponta que, embora o pensamento de Bergson seja estranho à teoria política, há uma possível apropriação política de sua obra através do desacordo entre as duas faculdades humanas enunciadas por Bergson, a intuição e a inteligência. A teoria de Jacques Rancière acerca da “partilha do sensível” parece fornecer os conceitos chaves para tal apropriação.

Convidamos todos os nossos leitores a saborearem essa edição, e esperamos que a leitura possa produzir efeitos de uma resistência subversiva e criativa!

Por Denise Maurano Mello





Denise Maurano Mello

Vivian Freitas de Mello e Lobélia da Silva Faceira

Ana Luiza Castro do Amaral e Lobélia da Silva Faceira

Sebastião Cesar Meirelles Sant’anna

Fernanda Santos Curcio e Lobélia da Silva Faceira

Vanessa Ferreira Gomes Da Silva e Lobélia da Silva Faceira

Adhara Pedrosa e Jô Gondar

Rejane De Moura Nunes e Denise Maurano

Mylena Perez e Nilda Martins Sirelli

Luis Vinicius Do Nascimento E Denise Maurano Mello

Sonia Maia e Jô Gondar

Isabela Gonçalves Farias e Lobélia Da Silva Faceira

Johanna Gondar Hildenbrand e Francisco Ramos Farias

Renée Louise Gisele da Silva Maia

Pedro Augusto Boal Costa Gomes e Jô Gondar


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