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Revista v. 14, n. 02

E brindamos o ano de 2016 com mais uma bela edição de Psicanálise e Barroco em Revista! Convidamos a todos a saborear conosco cada um dos textos que serão apresentados e que compõem nossa edição. Vamos a eles!

O artigo “Adolescência e psicanálise: sobre a importância de acolher o sujeito recém-chegado” de Aline Tavares e Sonia Alberti ressaltam que, na psicanálise de Freud com Lacan, a adolescência corresponde a uma etapa lógica de articulação do sujeito na estrutura, marcada pelo encontro com o sexo e com a falta no Outro. A partir desse pressuposto dialogam com alguns recortes do filme brasileiro As melhores coisas do mundo, dirigido por Laís Bodanzky e baseado na série de livros Mano, escritos por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. O filme apresenta um retrato paradigmático da adolescência: seu personagem principal encontra-se às voltas tanto com a angústia provocada pelo encontro com o real que o sexual implica, quanto com o fato de não poder mais sustentar uma posição idealizada junto a seus pais, o que o leva a se engajar no trabalho de se desligar da autoridade deles. Tempo de travessia, que não se faz sem um trabalho. 

Como sabemos, a arte é uma via fecunda para a transmissão da psicanálise, Thales Alberto Fonseca Vicente no texto “Da literatura à psicanálise: o luto poético de Manuel Bandeira”, faz uma análise psicanalítica de algumas poesias de Manuel Bandeira, partindo de fatos de sua biografia e elementos presentes em sua obra poética, em especial, no que tange à temática da morte, marcante em sua vida e frequente em sua poesia. Para a análise, o autor se vale, principalmente, das noções de luto e de sublimação, tal como articuladas dentro da teoria psicanalítica.

Versando sobre o luto, o artigo “A criança e o luto: a vivência da morte na infância” de Ilana Côrtes e Nilda Martins Sirelli, aborda as especificidades do luto para a psicanálise, para pensar como uma criança poderia lidar com a morte. O luto é uma produção árdua de retorno aos traços que ligam o sujeito a um determinado objeto, até que ele possa incorporá-los, podendo se ver livre para investir em novos objetos. Diante de uma perda, o luto não é uma reação automática, ele pode não acontecer, e um luto não vivido não é sem efeitos, podendo produzir ainda mais sofrimento, e diversos sintomas, como depressões, fobias, e falta de investimento em si e na vida.

Assim, nem para todos o luto é um trabalho possível, o artigo “Saturno e Nun: o desamparo e o ser em depressão” de Ana Rosa Gonçalves de Paula Guimarães evidencia isso.  A autora situa o desamparo como núcleo constituinte na depressão, para isso, retoma a referência do astro e figura mitológica grega de Saturno e da mitologia egípcia, Nun, como representantes do Caos, e faz um levantamento do desamparo nas contribuições de Freud e dos psicanalistas contemporâneos Deloya e Fédida, entre outros. 

Bernardo Sollar Godoi e Renata Viana Gomide, no artigo “Uma leitura sobre o ato suicida na contemporaneidade” evidencia ainda a impossibilidade de lidar com o mal-estar, que pode culminar pra além da depressão, em um ato suicida. Articulam a atuação frente o suicídio (acting out e passagem ao ato) ao contexto sociocultural contemporâneo, marcado pelo tabu da morte, a noção de maior vulnerabilidade a traumas, devido a uma possível redução da capacidade simbólica e as implicações derivadas da disseminação do discurso capitalista.

Ainda versando sobre as implicações do discurso contemporâneo, Sabrina de Oliveira Nésio e Juliana Motta no texto “Anorexia: o impasse subjetivo para lidar com o corpo e a feminilidade”, apontam que o crescente aparecimento da anorexia, em especial entre mulheres no início da idade adulta e adolescência, pode se articular a um imperativo do gozo contemporâneo que recai sobre o corpo da mulher, a lançando na busca de um ideal impossível. Pressupõem que a anorexia pode ser uma das formas encontradas pelo sujeito para lidar com o mal-estar estrutural ou a tentativa da construção da máscara feminina, de forma que a sintomatologia ao longo da história da civilização é própria a cada época.

Outra importante questão de nosso tempo, a ser pensada sob o olhar da psicanálise, se refere à inimputabilidade penal. Greta Fernandes Moreira e Betty B. Fuks no artigo “Da inimputabilidade penal e da responsabilidade do sujeito no discurso da psicanálise” analisam a questão da inimputabilidade penal, conceito jurídico referente à culpabilidade e consequente incapacidade do louco-criminoso em responder pelo ato infracional cometido, pela ótica da psicanálise, tomando por base as formulações lacanianas a respeito da constituição do sujeito a partir do campo da linguagem e de sua responsabilidade subjetiva. Já que, como ressalta Lacan no texto “A ciência e a verdade” (1966), “por nossa posição de sujeitos, somos sempre responsáveis”.

A organização de nossa sexualidade e a escolha objetal, é um tema que atravessa a história da humanidade, e ainda hoje nos permeia, sendo alvo constante de debates e preconceitos. O artigo “O enigma pulsional na escolha do objeto de Sidonie Csillag, a jovem homossexual”, de Carina Freitas Passos e Anamaria Silva Neves discute sobre o caminho que a pulsão percorre na escolha do objeto de Sidonie Csillag, caso apresentado por Freud no texto “A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher”. Para tal os conceitos de pulsão e objeto são retomados na obra freudiana, e articulados com o caso clínico e com a biografia de Sidonie.

O artigo “A escrita de caso clínico: um ritornelo em torno da falta”, de Cirlana Rodrigues de Souza aponta que o caso clínico é testemunho da clínica psicanalítica, nele convergindo a pesquisa e o tratamento. Convergência que ocorre por meio da letra bordeando o enigma do caso, que se manterá como não-realizado, não-sabido na narrativa que se escreve e, assim, nos mostra como cada sujeito vai enfrentando o que há de real em sua experiência subjetiva.  Esse ponto inassimilável, o “umbigo dos sonhos” é impossível de se escrever e, nessas condições, escrever um caso clínico é escancarar o buraco da boca de Irma, é fazer borda ao real.

Uma escrita é um modo de transmissão, que alcança efeitos muito além do que um autor pode saber enquanto escreve. Nesse sentido, a obra de Françoise Dolto ainda é prenha de conseqüências para o cenário psicanalítico, especialmente no que se refere à clínica com crianças. Francisco Lamartine Guedes Pinheiro e Letícia Maria Teixeira Matos no artigo “A influência de Françoise Dolto na clínica psicanalítica com crianças na atualidade”, apresentam os pressupostos teóricos básicos de Françoise Dolto, e suas influências no cenário atual, fazendo contrapontos com outros importantes psicanalistas de crianças, como Anna Freud, Melanie Klein e Donald Winnicott, para destacar as contribuições originais de Dolto.

Ainda tentando fazer borda ao real pela letra, Lacan recorre constantemente a matemas, topologia e esquemas diversos que possibilitem a transmissão da psicanálise. Márcio José da Silva, no artigo “Considerações sobre o estádio do espelho e os esquemas ópticos de Lacan” retoma os esquemas ópticos sob o olhar de um físico, apontando como ocorre a formação das imagens em situações físicas diferentes daquela que foi explorada por Lacan. A partir da teoria lacaniana, apresenta considerações que apontam para algumas interpretações possíveis de diferentes esquemas que possibilitam pensar a construção do narcisismo e da imagem especular.

Maurício de Novais Reis no texto “Estrutura básica da clínica: da medicina moderna à psicanálise” evidencia as modificações constantes que a clínica médica vem sofrendo, desde seu nascimento. Essas mudanças não se restringem a avanços tecnológicos, mas também às subversões semânticas de seu significado originário. Engendrando uma investigação acerca da clínica médica e, por extensão, psiquiátrica, este artigo possibilita uma reflexão acerca das similitudes e distorções existentes entre a clínica médica e psicanalítica. A clínica médica foi ponto de origem da psicanálise, mas, sabemos que Freud, cria um método de investigação próprio, e novas balizas éticas que sustentam a psicanálise como um saber autônomo com relação à clínica médica.

A questão das estruturas clínicas é um tema caro à psicanálise, sendo tema recorrente em nossas edições.  Nesse sentido, o artigo “Considerações sobre o amor na paranóia: Uma leitura a partir de Freud e Lacan” de Antonio Garcia Neto apresenta os desdobramentos do amor na estrutura da psicose, na tipologia da paranóia. O percurso partiu da formação do sujeito do inconsciente, retomando o conceito nomeado por Freud de Verwerfung, e por Lacan da foraclusão que apontam a posição do sujeito psicótico diante da castração, e que, certamente lhe conferem um modo específico de lidar com o amor. A emergência do fenômeno amoroso é uma via de sustentação do laço social, na qual o sujeito pode reposiciona-se frente ao Outro e a seus efeitos, via que pode ser fecunda na psicose.

Abordando ainda o sujeito psicótico, Claudete Justino Correa e Magali Milene Silva, no texto “Um estudo sobre o estatuto do supereu na psicose” partem da premissa freudiana de que o supereu é herdeiro do complexo de Édipo, para daí pensarem as peculiaridades do Édipo na psicose. Destacam que Lacan atribui a foraclusão como fator essencial da operação da psicose na castração, foracluindo o significante primordial, o Nome-do-Pai, que permite ao sujeito ancoragem simbólica e produção de significações. Contudo, o que foi foracluído ressurge no real, alucinatoriamente; o que não foi internalizado reaparece no real como a voz do Outro, por exemplo, o que parece evidenciar que o psicótico experimenta o Supereu no real.

Além dos artigos, para fechar com chave de ouro nossa edição, contamos ainda com duas resenhas: “O supereu na lei mosaica: Resenha do filme Bata antes de entrar”, de Pedro Brocco e a resenha do livro “Uma psicanálise possível”, de Janaína Bianchi de Mattos.

A primeira, articula o filme Bata antes de entrar (KnockKnock), lançado em 2015, com formulações da psicanálise acerca do supereu e da relação entre psicanálise e religião, sobretudo às formulações de Freud sobre o monoteísmo judaico. Neste sentido, o filme abre-se para interpretações que o ligam à noção de supereu que subjaz à Lei mosaica e às formulações de Lacan sobre a ética da psicanálise.

A segunda aponta os pontos principais apresentados no livro “Rio de Janeiro (1937-1959): Uma Psicanálise possível” de Maria Teresa Saraiva Melloni, onde a autora estabelece de forma primorosa uma compreensão analítica e histórica acerca da constituição do movimento psicanalítico no Rio de Janeiro. Sabemos que compreender a história é um modo de poder olhar e atuar nos engendramentos do presente, e na constituição do que estar por vir.

Para finalizar, ainda fomos presenteados com o ensaio “O tempo, esse passante”, de Maria Teresa Saraiva Melloni, que com uma escrita poética nos fala sobre a transitoriedade.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Por Denise Maurano Mello e Nilda Martins Sirelli
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Equipe Psicanálise & Barroco em revista,
24 de dez de 2016 15:28
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