Em outros números de nossa revista ocorreu, frequentemente, dos temas “conspirarem entre si”. Ou seja, embora a nossa proposta não seja de números temáticos, muitas vezes aconteceu de chegarem a nossas mãos, e serem selecionados para um novo número, temas senão afins, muito articuláveis entre si. Certamente, à primeira vista, este não é o caso dessa vez.
Para este número seis de Psicanálise & Barroco em revista, dos artigos que nos foram enviados, selecionamos quatro que tratam de temas bastante diversos. Contemplamos desde pontuações acerca da relação psicanálise e barroco, relação essa que por razões já conhecidas por nossos leitores, nos é tão cara, até aspectos teórico-clínicos da presença da psicanálise na clínica com bebês, passando ainda por reflexões relativas à diferença entre identidade nacional e identidade cultural, e por questões que aproximam o aparecimento da chamada Body Art com a emergência das impulsões no que alguns concebem como patologias do ato na Contemporaneidade.
Temos, portanto, uma diversidade de temas sendo tratados, o que ressalta o caráter dessa revista que, enquanto meio de veiculação de artigos e ensaios sobre psicanálise, arte e cultura de forma geral, busca promover a transdisciplinariedade como via fecunda para o avanço no campo do saber, para a produção de novas idéias e para a tentativa de novas soluções. Enfatizamos a transdisciplinariedade pelo fato de que tal procedimento, longe de querer dar conta de tudo, ou de tentar anular contradições, visa estabelecer possíveis pontes de comunicação. Pensamos que ao invés de simplificar e separar questões cruciais da ciência é preciso abordá-las em sua complexidade. Aqui, qualquer semelhança com o que MORIN propõe como “pensamento complexo”, não é mera coincidência. (MORIN, 1996, p.30). Quando a transdisciplinariedade não está presente diretamente nos textos, que em sua grande maioria, trabalham com contribuições advindas de campos diversos, vocês podem estar certos de encontrá-la, através de sua fácil articulação com outros textos presentes em nossa revista.
Vamos começar por convidá-los a apreciar o vigor desse tipo de interlocução no artigo de Francisco Ramos de Farias, Impulsões nas patologias do ato e na Body Art: consumo e gozo. Nele, o autor sugere uma relação entre a insurgência desse movimento artístico contemporâneo com o contexto, diríamos pós-moderno de nossos dias, que escraviza o sujeito à técnica e às promessas de satisfação máxima. Na Body Art, o corpo, tomado como objeto, sofre intervenções pontuais que vão desde tatuagens e intervenções cirúrgicas radicais em nome de ditas manifestações estéticas, até espetáculos de automutilações ou, experiências de exposição do corpo à dor, até um limite insuportável, em nome, por vezes, de vivências extasiáticas, nas quais se busca transpor esses limites.
Ele defende que em conseqüência do saber disponível pelas engrenagens científicas e da tecnologização de nossos tempos, a contemporaneidade é vivida como “uma experiência de indeterminação e apatia entre um passado e um futuro”. Tudo se mostra instável e efêmero, o que promoveria a produção de novas modalidades subjetivas que primam pela impulsividade, produzindo o que alguns chamam de patologias do ato. O imperativo do consumo e do gozo se imporia nesse contexto como apontando vias de obtenção de um possível bem estar.
Abordando o sintoma, tal como formulado por Freud, enquanto manifestação do retorno de um desejo recalcado, o autor propõe que as manifestações tão presentes na atualidade como bulimia, anorexia, depressão, toxicomanias, correções ortopédicas do corpo para torná-lo consumível, não designariam propriamente sintomas, mas novas produções subjetivas, que seriam expressão imediata de descargas pulsionais, e por isso questiona sua denominação corrente de “novos sintomas”. A novidade estaria no fato de serem respostas que viriam denunciar a efemeridade da experiência contemporânea. Nesse mesmo sentido, a Body Art seria também uma contestação à sociedade e aos valores burgueses e caberia interrogar se tais manifestações não seriam insurgências contra o nivelamento e a homogeneização radical que somente faz seriação e escamoteia toda diferença.
Como o leitor já poderá perceber, quer concorde ou não com essa proposição, os argumentos do autor são bastante interessantes e merecedores de uma leitura atenta.
O artigo de Eurídice Figueiredo e de Jovita Maria Gerheim Noronha, Identidade Nacional e Identidade Cultural, é também tocado por questões da dita pós-modernidade, na medida em que, parte do princípio de que na atualidade, fala-se muito mais em identidades plurais ou em identificações, em função do caráter provisório e em constante mutação do sujeito contemporâneo. Eles lembram que uma certa concepção de identidade surge no final do século XVIII, associada a um ideal de singularidade e de autenticidade, e que no esteio desta concepção, surge a de identidade nacional, com a intenção de designar a identidade de cada povo.
Ressaltam que essa questão identitária terá uma função própria na afirmação da nacionalidade, e que no Brasil, surgindo, sobretudo a partir do século XIX, em meio ao romantismo, é oriunda do “conflito de já não poder/querer ser português. Na busca de uma genealogia, de um mito cosmogônico, os que dela se incumbem, renegam a contribuição do negro, exaltando o índio na formação da identidade nacional. Os autores sublinham a preocupação dos modernistas com a questão do “caráter nacional”, e retomando observações de Mario de Andrade no prefácio de Macunaíma, (jamais publicado como tal), observam que na dita falta de caráter do brasileiro, ressaltada nessa obra, o termo “ caráter”, não dizia respeito a uma “realidade moral”, mas “ a uma entidade psíquica permanente” que se manifestaria integralmente. Assim, o brasileiro não tem caráter porque não possui uma pureza na forma de constituir sua civilização e nem tem consciência de tradição. Não se trata, portanto, de fazer menção a compromentimentos morais.
A partir desse ponto, uma análise interessante é tecida acerca dos brasileiros, e a reflexão é encaminhada para a questão da identidade cultural. Neste caso, o esteio de pertencimento não é ao Estado-Nação, mas sim a uma cultura comum. A referência não é geográfica, mas tende a ser transnacional. Essa perspectiva critica também o apoio em qualquer afirmacionismo de raça, dado que o que interessa são as formas geopolíticas e geoculturais de vida que são resultado da troca entre os povos. Nesse sentido, creio que podemos dizer que o caráter pós-moderno do Brasil, ressaltado positivamente com autores como Michel Maffesolli, talvez se deva em grande parte ao fato de que na formação de nossa gente, confluiram tantas culturas, num dinamismo tal, que efetivamente, só mesmo de modo romântico poderíamos apontar em nós alguma pureza.
O texto O mal-estar na civilização barroca: uma abordagem psicanalítica, de Ana Flávia............., aborda alguns aspectos que tem sido contemplados em nossas pesquisas sobre a relação entre o barroco e a psicanálise. A leitura feita pela autora destaca esquematicamente alguns pontos que devem colaborar para o entendimento de tal articulação. Ela privilegia o fato de que o sujeito, tal como abordado pela expressão barroca, em suas diferentes manifestações, apresenta-se como marcado por uma tensão interior, um conflito, um estado de turbulência, no qual a morte invade a vida, revelando a íntima afinidade entre prazer e dor, martírio e êxtase, medo e beatitude, arrependimento e alegria, revelando a maneira paradoxal pela qual esta expressão artística focaliza a condição humana. E será por esse mesmo viés, que sublinhará a afinidade entre essa expressão e a psicanálise, focalizando, sobretudo, o texto de Freud O mal-estar na civilização. Vale conferir o trabalho por ela empreendido.
Depois de artigos que, de certo modo, lançam luz sobre questões da subjetividade num sentido mais amplo e vinculado a discussões relativas à cultura, o artigo de Anna Costa Pinto Ribeiro Riani, A psicanálise na clínica com bebês, fecha esse novo número focalizando certas condições à priori para a especificidade da constituição de um sujeito. Faz isso, encaminhando uma aposta nesses novos campos clínicos nos quais a ética da psicanálise tem revelado seus efeitos, nas possíveis intervenções que neles se tem efetuado. Trata-se de um trabalho monográfico, criterioso, no qual a autora vai articulando teoricamente sua experiência clínica, sobretudo a partir do sobressalto que lhe trouxe o contato com um caso específico de uma moça, que engravidando prematuramente, tem seu bebê também prematuro e se sente impedida de assumir a maternagem do mesmo. No caso, as intervenções da analista foram cruciais para que essa mãe pudesse autorizar-se como tal.
Suas considerações são tecidas no esteio das observações advindas da clínica, entrecruzadas por leituras que vão da medicina à psicanálise, buscando fazer valer as possibilidades de que a psicanálise, com a ética que lhe é própria, possa até mesmo intervir no momento da emergência do sujeito.
Sem mais, convido os leitores a irem aos textos, e a nos darem retorno a partir do envio de suas próprias contribuições.
Assim finalizamos essa apresentação das reflexões propostas nesse número cinco de nossa revista, que pode ser tomado, numa certa perspectiva, como um leque de possibilidades para se focalizar os desdobramentos da concepção de ciência, que trouxe implicações diversas, para o campo das artes, do pensamento e da cultura de uma forma geral nas suas expressões contemporâneas. Espero que a fecundidade destes textos lhes traga tanta satisfação quanto a que tive na leitura dos mesmos.